Setembro/2011

Artigo

Cultura estatizante

João Luiz Mauad

 

 

 

 

 

 

 

Roberto Campos. Exemplo de insucesso liberal na política, numa sociedade dominada pela ideologia socialista

Qualquer crise econômica é dolorosa. Mas as crises, nas economias capitalistas, são também repositórios de oportunidades. Em tempos de crise, mercados se fecham e mercados se abrem. É nesses momentos que a destruição criadora, de que falava Schumpeter, se acentua.

O problema é que o espírito empreendedor, que induz indivíduos e empresas a inovar, a experimentar e a criar, precisa de um ambiente propício para prosperar, pois não são necessárias apenas boas ideias e disposição para tocar um negócio. Muitas outras variáveis são importantes, notadamente respeito ao direito de propriedade, estabilidade jurídica, justiça rápida, baixa regulamentação, facilidade para abertura de novas empresas, carga tributária reduzida sobre a produção e o trabalho, crédito abundante e barato, abertura para o exterior, entre outras.

Infelizmente, a mentalidade no Brasil pende muito mais para o poder empreendedor do Estado do que para a iniciativa privada. Muito poucos são aqueles que realmente acreditam que um futuro próspero depende do empreendedorismo e não do voluntarismo político. Aqui, o governo é, na maioria das vezes, concorrente, e não regulador e árbitro, como seria desejável. É evidente que, como concorrente, não interessa ao Estado tomar medidas que incentivem o crescimento e independência da iniciativa privada.

Se, apesar de todos os entraves hoje existentes, a economia brasileira ainda consegue crescer a taxas de 4% a 5% ao ano, imagine se conseguíssemos estabelecer por aqui um ambiente de negócios realmente propício, onde prevalecesse a liberdade econômica, a baixa regulamentação, os baixos impostos, onde o Estado defendesse eficientemente a vida, a liberdade e a propriedade dos cidadãos, garantisse a execução dos contratos, proviesse regras claras de boa conduta e uma justiça impessoal.

O Banco Mundial (ver em http://www.doingbusiness.org/EconomyRankings/) divulga anualmente um relatório sobre o ambiente de negócios no mundo. Esse levantamento é baseado na análise quantitativa e qualitativa de 10 diferentes aspectos ligados ao ambiente institucional de negócios, com destaque para a burocracia envolvida na abertura e fechamento de empresas, licenciamentos governamentais, contratação de mão-de-obra – principalmente os encargos relacionados à admissão e demissão de pessoal –, registros de propriedade, acesso ao crédito, segurança jurídica, pagamento de impostos (carga tributária e burocracia envolvida), facilidades (dificuldades) de comércio com o exterior e respeito aos contratos. Como é fácil inferir, o Brasil, desde os primeiros resultados, esteve sempre perto das últimas colocações.

Muitos membros do governo brasileiro têm reclamado dessas análises, alegando que elas não representam a realidade econômica do país e baseiam-se em dados defasados e/ou tendenciosos. Qualquer empresário que já arriscou abrir um negócio por aqui, no entanto, sabe que os resultados encontrados pelo Banco Mundial, se não são exatos, estão muito próximos da realidade.

Embora ainda não exista uma mobilização efetiva da sociedade e, principalmente, do empresariado (mais preocupado com a sobrevivência diária ou com a manutenção de privilégios), já começam a surgir, aqui e ali, algumas vozes isoladas contra esse estado de coisas.

A própria imprensa, antes tão estatista e antiliberal, hoje parece muito mais consciente de que o caminho é mesmo através da iniciativa privada, e não do governismo. A linha editorial atual dos grandes jornais é um exemplo claro disso. Já não é tão fácil para o governo aumentar impostos, criar leis trabalhistas esdrúxulas ou gastar o dinheiro dos pagadores de impostos sem critério, sem que isso provoque reações imediatas, como foi o caso da recente tentativa de ressuscitar a famigerada CPMF (que Deus a tenha!).

Mas no meio político a mentalidade ainda é flagrantemente intervencionista. O discurso político dominante é o da esquerda – repleto de propostas anti-mercado.

Muitos acreditam que a solução para combater essa hegemonia de idéias (e ideais) estatizantes seria investir em partidos e políticos engajados com uma proposta mais liberal, mas não sei se esta seria uma boa estratégia, pelo menos por enquanto.

Acho até que haveria espaço para eleger, a curto prazo, alguns pouquíssimos candidatos dispostos a defender a livre iniciativa e um Estado mais enxuto. Mas isso não seria suficiente. Já tivemos no Congresso, em passado recente, por exemplo, um político liberal da estirpe de Roberto Campos. E o que ele conseguiu? Praticamente nada, pois não era mais do que um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento.

Portanto, antes de se pensar em representação política, já que ela nada mais é do que o espelho da sociedade, é preciso reverter a cultura intervencionista que tomou conta da opinião pública – e até mesmo de muitos empresários.

João Luiz Mauad é empresário
Transcrito do Diário do Comércio
da Assoc. Comercial de SP