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Tenho uma
implicância com o adjetivo “diferenciado”. Quando o
sujeito não sabe o que vai dizer para qualificar alguma
coisa a palavra escolhida é sempre essa: diferenciado.
Não é diferente, não é especial, não é original, não é
exclusivo, nem de qualidade superior. É diferenciado e
pronto.
O regime
cubano completou meio século de subsistência no começo
deste ano. Meio século ao longo do qual a antiga “Pérola
do Caribe” virou um calhambeque dos infernos ancorado no
paraíso do trópico. Quando Fidel fez sua revolução,
metade do planeta acreditava que o mundo marchava para o
comunismo. Digamos, pois, que acreditar nessa bobagem
era, à época, um erro frequente. Pronuncie-se, então,
uma penitência leve, de três ave-marias, para o
simpatizante de meados do século 20 e despache-se o
tolinho: “Vai em paz, meu filho. Ocupa tua mente com
ideias sadias e não tornes a pensar besteira”. Os
outros, os que foram militantes, os que mataram,
roubaram, mentiram, traíram, mistificaram e praticaram
toda sorte de vilanias em nome da causa, bem como os que
ainda hoje envenenam as mentes juvenis com tais ideias,
vão ter que se explicar a Deus.
De fato, a
segunda metade do século passado exibiu as entranhas do
sistema mais perverso que a maldade humana já concebeu.
Caiu o Muro de Berlim, por podre e pobre. Desfez-se o
Império Soviético. Contabilizaram-se mais de cem milhões
de vítimas da insânia vermelha. O comunismo foi um
fracasso geral de público e renda. Sobraram apenas os
mais renitentes. Mas sequer os mais renitentes ousam
defender os regimes que caíram ou os estão em processo
de transformação.
Sobrou-lhes
Cuba. E Cuba é um péssimo cliente para qualquer
publicidade. A partir de junho passado, o que lá era
péssimo ficou pior ainda. Despencou o turismo.
Reduziu-se a mesada enviada por Chávez. O níquel perdeu
preço no mercado mundial. Ampliaram-se os cortes de
energia, os fornos das padarias não podem funcionar à
noite e a produção de alimentos continua
insuficientíssima. Mas Cuba é o que lhes sobrou. Com o
ancião Fidel e o bandido Che, eternamente jovem, como
mito sexual da juventude desajustada (se Che fosse velho
e feio duvido que algum garotão andasse por aí com seu
vulto estampado na camiseta). Depois que se abriram os
Arquivos de Moscou, depois que se destaparam os gulags,
depois que se exibiram as cenas da Praça da Paz
Celestial e chegaram ao conhecimento público o que os
comunistas fizeram no Vietnã após a retirada dos Estados
Unidos em 1973, ninguém aparecerá em público para
defender o comunismo. Mas Cuba é um caso diferenciado,
sacou mano?
Cuba só tem a
seu favor a impopularidade dos Estados Unidos. E mesmo
assim é difícil escolher um verbo para definir o que
Cuba faz em relação aos Estados Unidos. Enfrentar não
enfrenta. Lutar não luta. Combater não combate. Resistir
não resiste porque só foi atacada uma vez em 1961. Cuba,
digamos assim, mantém com os Estados Unidos uma relação
diferenciada. E é exatamente disso que os comunistas
impenitentes do resto do mundo se valem.
Eles elogiam o
regime desde fora (que ninguém é doido para ir viver na
Ilha). E criaram uma forma diferenciada de ser
comunista: vivem sob as benesses da democracia e da
liberdade e sustentam que comunismo é um regime bom para
os outros. |