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Confirma-se pela enésima vez aquilo que venho dizendo há
anos: a maioria absoluta dos brasileiros, especialmente
jovens, é um eleitorado maciçamente conservador
desprovido de representação política, de ingresso nos
debates intelectuais e de espaço na “grande mídia”. É um
povo marginalizado, escorraçado da cena pública por
aqueles que prometeram abrir-lhe as portas da democracia
e da participação.
Enquanto as próximas eleições anunciam repetir a já
tradicional disputa em família entre candidatos de
esquerda, mais uma pesquisa, desta vez realizada pela
Universidade Federal de Pernambuco, mostra que, entre
jovens universitários, 81% discordam da liberação da
maconha e 76% são contra o aborto. “É um comportamento
de aceitação das leis... a gente vê a religião
influenciando muito a vida dos jovens”, explica o
coordenador da pesquisa, Pierre Lucena, na notinha
miúda, quase confidencial, com que O Globo, a
contragosto, fornece a seus leitores essa notícia
abominável (aqui).
Na Folha de S. Paulo, no Estadão e no Globo, quem quer
que pense como esses jovens - ou seja, o eleitorado
nacional quase inteiro - é considerado um extremista de
direita, indigno de ser ouvido. Nas eleições, nenhum
partido ou candidato ousa falar em seu nome. A
intelectualidade tagarela refere-se a eles como a uma
ralé fundamentalista, degenerada, louca, sifilítica.
Qualquer político, jornalista ou intelectual que fale
como eles entra imediatamente no rol dos tipos
excêntricos e grotescos, se não na dos culpados
retroativos pelos “crimes da ditadura”, mesmo se
cometidos quanto o coitado tinha três anos de idade.
Nunca o abismo entre a elite falante e a realidade da
vida popular foi tão profundo, tão vasto, tão
intransponível. Tudo o que o povo ama, os bem-pensantes
odeiam; tudo o que ele venera, eles desprezam, tudo o
que ele respeita, eles reduzem a objeto de chacota,
quando não de denúncia indignada, como se estivessem
falando de um risco de saúde pública, de uma ameaça
iminente à ordem constitucional, de uma epidemia de
crimes e horrores jamais vistos.
Trinta anos atrás eu já sabia que isso ia acontecer. Era
o óbvio dos óbvios. Quando uma vanguarda revolucionária
professa defender os interesses econômicos do povo mas
ao mesmo tempo despreza a sua religião, a sua moral e as
suas tradições familiares, é claro que ela não quer
fazer o bem a esse povo, mas apenas usar aqueles
interesses como chamariz para lhe impor valores que não
são os dele, firmemente decidida a atirá-lo à lata de
lixo se ele não concordar em remoldar-se à imagem e
semelhança de seus novos mentores e patrões. É
precisamente isto o que está acontecendo. Jogam ao povo
as migalhas do Bolsa-Família, mas, se em troca dessa
miséria ele não passa a renegar tudo o que ama e a amar
tudo o que odeia, se ele não consente em tornar-se
abortista, gayzista, quotista racial, castrochavista,
pró-terrorista, defensor das drogas e amante de
bandidos, eles o marginalizam, excluem-no da vida
pública, e ainda se acreditam merecedores da sua
gratidão porque lhe concedem de quatro em quatro anos,
democraticamente, generosamente, o direito de votar em
partidos que representam o contrário de tudo aquilo em
que ele crê.
Pense bem. Se alguém lhe promete algum dinheiro mas não
esconde o desprezo que tem pelas suas convicções, pelos
seus valores sagrados, por tudo aquilo que você ama e
venera, você pode acreditar ele lhe tem alguma amizade
sincera, por mínima que seja? Não está na cara que essa
é uma amizade aviltante e corruptora, que aceitá-la é
jogar a honra e a alma pela janela, é submeter-se a um
rito sacrificial abjeto em troca de uma promessa
obviamente enganosa? Só um bajulador compulsivo, uma
alma de cão, aceitaria essa oferta. Mas as mentes
iluminadas que nos governam querem não apenas que o povo
a aceite, mas que a aceite abanando a cauda de
felicidade.
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