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Em minha
última visita ao Rio de Janeiro, observei mudanças logo
ao sair do Galeão. Passei ao lado do Conjunto do Alemão,
gigantesca combinação de favelas. E notei algo novo.
Fui
repórter de polícia na juventude e tinha intimidade com
os morros que subia tranqüilo. Não esqueço dois
companheiros que se intercalavam como minha companhia e
fotógrafos. Nestor Leite, um amazonense baixinho que
nada temia, e Antônio Monteiro, mais conhecido por
Antônio Mulato, outro que nada temia. Éramos de O Globo.
Nestor, não dá para esquecer, foi meu companheiro numa
exploração da floresta amazônica do então Guaporé,
perigosíssima. E me salvou a vida ao sacar seu revólver
com velocidade de “mocinho” para acertar cobra jararaca
que pulava para me picar. Seria mortal. Com o Mulato,
deslindamos em poucas horas o mitológico “crime da mala”
enquanto a Polícia se preocupava com impressões
digitais. Não dá para esquecer Madame Satã, Carne Seca,
Sete Dedos, Bola Preta outros perigosos malandros.
Nos Morros
sabiam que nos protegiam e éramos respeitados. Mas o
Alemão e outros que vi de perto, de passagem, tinham
algo de diferente que não era o tamanho. Ser repórter é
ter insaciável curiosidade e estar sempre alerta. Nas
entradas dos morros notei nova organização dos garotos
que antes viviam nas proximidades soltando “papagaios”
para matar tempo enquanto desempenhavam a missão de
vigilantes dos bandos que avisavam, correndo como
cabritos, de que a Polícia subia. Tinham, agora, motocas
e outros meios de comunicação. Distribuíam-se
estrategicamente. Aí me informaram, gente que sabia das
coisas, que havia estrangeiros nos morros treinando os
bandidos em como guerrear. Falavam português
“engraçado”, eram ex-guerrilheiros africanos. Gente que
nada mais sabia do que lutar. Guerrilheiros que fugiam
de seus países onde seus grupos haviam sido derrotados.
Seriam angolanos. Serão de outras origens agora, não
sei, estou longe. Aposto que qualquer chofer de táxi
sabe. Isto não deve ter mudado. Escrevi a respeito. Pelo
que aconteceu depois, não investigaram a minha suspeita.
Os ataques
em S. Paulo e os do Rio têm todas as características de
planejados e executados por guerrilhas treinadas e bem
comandadas. E, pelas aparências, estão sendo enfrentados
por táticas convencionais que tendem a ser derrotadas. É
o banditismo dos novos tempos: armas de ataque e meios
de defesa. E podem comprar as armas que desejarem num
mercado negro internacional suprido de tudo. Até das
mais mortíferas.
Os bandidos
que ameaçam Rio, S. Paulo e outros centros urbanos
brasileiros só não assumiram uma ideologia. São, talvez,
o tipo mais perigoso de guerrilhas cuja bandeira é a
sobrevivência a todo custo. Cruéis ao extremo. A questão
agora é saber como poderão ser derrotados. Os morros e
favelas têm as posições de domínio estratégico. E a
vantagem de poder contar com o escudo dos Códigos de
Defesa dos Direitos Humanos.
O autor é jornalista correspondente em
Israel.
O artigo foi escrito em janeiro de 2007
Fonte: www.institutoliberal.org.br |