4 de Abril de 2011

Artigo

 

Não reaja (e seja baleado assim mesmo)

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O ex-árbitro Oscar Roberto Godói foi baleado mesmo sem reagir ao assalto. Assim que se noticiou que ele havia sido baleado por um bandido na porta de um edifício nas Perdizes (São Paulo), a imprensa praticamente em uníssono correu para dizer que a vítima, célebre por seus comentários desaforados, tinha “reagido”. Agora, ao sair do coma, Godói esclarece que não reagiu coisíssima nenhuma. Será que os jornais vão procurar o assaltante para ouvir o “outro lado” do episódio? Não é a primeira vez que a imprensa e os “especialistas” (entre eles, muitos policiais com preguiça de fazer seu próprio trabalho) tratam baleados e assassinados como culpados pelos crimes dos quais são vítimas.

A ladainha é sempre a mesma, como se houvesse alguma espécie de tratado entre a bandidagem e a população de bem: sem reagir, a “segurança” da vítima estaria garantida. É óbvio que a premissa é mentirosa e não tem qualquer tipo de contrapartida científica: uma vítima pode reagir e escapar, assim como pode não reagir e ser atingida da mesma forma.

A solução para a onda de violência no Brasil não é outra senão prender criminosos e mantê-los atrás das grades. Não reagir, no atual estado de coisas, é mero detalhe operacional, por assim dizer. Ou alguém se arrisca a dizer que a garota Vanessa de Vasconcelos Duarte foi raptada, estuprada, torturada e morta porque “reagiu”? E quando é que o sistema judicial brasileiro vai começar a assumir a própria responsabilidade por soltar assassinos seriais sem qualquer aviso à sociedade?

Bandidos: perdão por existirmos!

Reportagem sobre assaltos (www.dcomercio.com.br/Materia.aspx) só falta afirmar que os cidadãos de bem devem sair com uma placa pendurada no pescoço onde constem os dizeres “por favor, me assalte, eu sigo as regras da boa vítima”.

Ouvindo os indefectíveis “especialistas em segurança pública” e com um equivoco em seu conteúdo - ao contrário do que diz a matéria, o ex-árbrito Godói fez exatamente o que se sugere como solução para evitar a violência dos marginais, não reagiu e mesmo assim acabou baleado - o texto só faltou afirmar que, como norma de boa conduta durante um assalto, o cidadão também não deve respirar e pensar, e talvez, se possível, possa tentar se desmaterializar, tudo para evitar atrapalhar a ação dos marginais.
Mas como provam vários crimes bárbaros cometidos recentemente, onde não houve reação de nenhum tipo das vítimas, e mesmo assim elas foram alvo da sanha dos criminosos, ensinar as pessoas a se tornarem cordeiros e gado para o abate parece que também não funciona.

Muito mais correto seria analisar a questão de forma séria e corajosa, mas isso certamente não faz parte do simplista repertório politicamente correto, segundo o qual o indivíduo deve abrir mão de tudo - opinião, direitos, inclusive o de autodefesa, vida, propriedade - em troca de garantias impossíveis de serem totalmente cumpridas pelo Estado. Conservando, ao que parece, apenas o sagrado dever de pagar impostos e fazer parte da loteria que dá como prêmio participar das estatísticas de violências cometidas por marginais que agem exatamente porque sabem que a reação é nula, as leis são brandas e vai sempre haver algum falastrão tentando teorizar o problema de segurança pública em termos que, no final das contas, dividem as responsabilidades entre bandidos e suas vítimas.