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O ex-árbitro Oscar Roberto Godói foi baleado mesmo sem
reagir ao assalto. Assim que se noticiou que ele havia
sido baleado por um bandido na porta de um edifício nas
Perdizes (São Paulo), a imprensa praticamente em
uníssono correu para dizer que a vítima, célebre por
seus comentários desaforados, tinha “reagido”. Agora, ao
sair do coma, Godói esclarece que não reagiu coisíssima
nenhuma. Será que os jornais vão procurar o assaltante
para ouvir o “outro lado” do episódio? Não é a primeira
vez que a imprensa e os “especialistas” (entre eles,
muitos policiais com preguiça de fazer seu próprio
trabalho) tratam baleados e assassinados como culpados
pelos crimes dos quais são vítimas.
A ladainha é sempre a mesma, como se houvesse alguma
espécie de tratado entre a bandidagem e a população de
bem: sem reagir, a “segurança” da vítima estaria
garantida. É óbvio que a premissa é mentirosa e não tem
qualquer tipo de contrapartida científica: uma vítima
pode reagir e escapar, assim como pode não reagir e ser
atingida da mesma forma.
A solução para a onda de violência no Brasil não é outra
senão prender criminosos e mantê-los atrás das grades.
Não reagir, no atual estado de coisas, é mero detalhe
operacional, por assim dizer. Ou alguém se arrisca a
dizer que a garota Vanessa de Vasconcelos Duarte foi
raptada, estuprada, torturada e morta porque “reagiu”? E
quando é que o sistema judicial brasileiro vai começar a
assumir a própria responsabilidade por soltar assassinos
seriais sem qualquer aviso à sociedade?
Bandidos: perdão por existirmos!
Reportagem sobre assaltos (www.dcomercio.com.br/Materia.aspx)
só falta afirmar que os cidadãos de bem devem sair com
uma placa pendurada no pescoço onde constem os dizeres
“por favor, me assalte, eu sigo as regras da boa
vítima”.
Ouvindo os indefectíveis “especialistas em segurança
pública” e com um equivoco em seu conteúdo - ao
contrário do que diz a matéria, o ex-árbrito Godói fez
exatamente o que se sugere como solução para evitar a
violência dos marginais, não reagiu e mesmo assim acabou
baleado - o texto só faltou afirmar que, como norma de
boa conduta durante um assalto, o cidadão também não
deve respirar e pensar, e talvez, se possível, possa
tentar se desmaterializar, tudo para evitar atrapalhar a
ação dos marginais.
Mas como provam vários crimes bárbaros cometidos
recentemente, onde não houve reação de nenhum tipo das
vítimas, e mesmo assim elas foram alvo da sanha dos
criminosos, ensinar as pessoas a se tornarem cordeiros e
gado para o abate parece que também não funciona.
Muito mais correto seria analisar a questão de forma
séria e corajosa, mas isso certamente não faz parte do
simplista repertório politicamente correto, segundo o
qual o indivíduo deve abrir mão de tudo - opinião,
direitos, inclusive o de autodefesa, vida, propriedade -
em troca de garantias impossíveis de serem totalmente
cumpridas pelo Estado. Conservando, ao que parece,
apenas o sagrado dever de pagar impostos e fazer parte
da loteria que dá como prêmio participar das
estatísticas de violências cometidas por marginais que
agem exatamente porque sabem que a reação é nula, as
leis são brandas e vai sempre haver algum falastrão
tentando teorizar o problema de segurança pública em
termos que, no final das contas, dividem as
responsabilidades entre bandidos e suas vítimas. |