| Morador do Rio Vermelho, o professor
de Geografia Anselmo Heidrich (41) é formado pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduando em Geografia Humana
pela USP e crítico ferrenho de “eco-achismos”. Anselmo costuma
dizer que há muito mais gente vivendo da ecologia do que para
ela. E denuncia que há grande confusão entre previsão e profecia
nos debates sobre o aquecimento global, defendendo soluções
práticas para o problema. Casado com a médica Ana Paula - o
casal reside em um simpático chalé alugado no Vale do Sol -
Heidrich já está integrando o Núcleo Distrital do Rio Vermelho
no Plano Diretor Participativo.
Ele foi entrevistado pelo aluno Felipe Sil, que cursa o
sétimo período de Jornalismo na Universidade Estácio de Sá, em
trabalho cujo tema é a pergunta: Planeta condenado?
A entrevista, publicada no Jornal da Estácio (fev/07/no 30),
sob o título de Previsão x Profecia, foi gentilmente cedida para
publicação no Jornal Bairro, que abusou da cortesia e
acrescentou duas questões, ao final.
Jornal da Estácio - Qual a sua visão sobre o aquecimento
global?
Heidrich - Há três vertentes teóricas: a de que é
induzido por causas humanas, como as emissões de gás carbônico e
metano; a de que é natural, devido aos ciclos de resfriamento –
Eras Glaciais – e, então, estaríamos vivendo um período de
aquecimento por acabarmos de sair (em termos geológicos) da Era
Glacial; e a de que é natural, mas incrementada pela ação humana
(os dois fatores, em conjunto, atuariam neste sentido.)
Jornal da Estácio - Como você prevê o futuro do
planeta no caso de um aumento do problema?
Heidrich - O pior cenário seria a elevação do nível dos
oceanos e a retenção da vazão dos rios tropicais, nos quais
grande parte da agricultura dos pobres é praticada. Daí, não
restaria alternativa senão a fome e o controle populacional
natural. O melhor cenário seria a adaptação tecnológica a longo
prazo (um século), em que novas matrizes energéticas seriam
popularizadas.
Jornal da Estácio - Quais as soluções para o
aquecimento global?
Heidrich - Os sumidouros de carbono (locais e processos
que eliminam o carbono). Embora não exista consenso científico
sobre eles, eu os endosso, pois são grandes fontes de negócio e
influxos de investimentos externos. Mas ninguém sabe ao certo o
que virá... Qualquer informação com certeza neste campo é fruto
de “achismos” e especulações de quem confunde previsão com
profecia. Torço para que cientistas e governantes não se deixem
seduzir pelo “catastrofismo” ambientalista de políticos e de
ONGs.
Jornal da Estácio - O que você diria para aqueles que
possuem uma visão mais apocalíptica do futuro do planeta?
Heidrich - Estudem. Não para pensar como eu, mas para
poder propor algo. Há mais gente vivendo da ecologia do que para
a ecologia. Como dizia o historiador Paul Veyne, “crenças
baseadas na paixão prestam um mau serviço à própria paixão”. Não
adianta propor mudanças sem conhecer em detalhes o que almeja
mudar.
Jornal Bairro - Nossos defensores do meio-ambiente de
plantão até já andam querendo trocar o tradicional nome de
Caminho do Travessão por uma ainda bem distante “Costa do
Moçambique”. Quais as projeções práticas da elevação do nível do
mar, no pior dos cenários para o Norte da Ilha? O Travessão, por
exemplo, pode virar praia?
Heidrich - Muitas das teorias em debate ainda não são
comprovadas, entre outros fatores porque dependem de longos
ciclos geológicos, muito mais lógicos e aceitos do que uma
suposta elevação marinha. Ela até pode ocorrer, mas isso não é
verificável no momento. Bem... se o nosso Caminho do Travessão
vai virar praia eu não sei, mas não há dúvida de que consiste em
excelente estratégia de marketing trocar um nome tradicional,
típico da cultura local por outro... digamos, mais kitsch, como
“Costa do Moçambique”! Tais “ambientalistas” estão “bem
intencionados” sim. Mas não com causas ambientais e sim com a
valorização de seus imóveis através de uma estratégia pobre e
típica de campanhas superficiais, em que se mudam os nomes das
coisas mas quanto aos problemas permanece tudo igual. Nada tenho
contra quem quer valorizar seu bem imóvel, mas é hipócrita, para
dizer o mínimo, utilizar o meio ambiente como justificativa para
interesses particulares e escusos.
Jornal Bairro - Se o aquecimento global não é o
prenúncio da catástrofe que vem sendo proclamada, e pensando
apenas localmente, com os olhos postos no cenário atual do Norte
da Ilha: cite três ações importantes, inclusive que devam ser
tomadas como atitude cotidiana pelos cidadãos com o objetivo de
melhorar já o meio social e ambiental em que vivemos.
Heidrich - Sou contra radicalismos. Contra o
ambientalismo radical que pensa que somos um “erro da natureza”
e contra o desenvolvimentismo radical que pensa que podemos
incorporar espaços a revelia, sem planejamento e discussão. Em
primeiro lugar, sou a favor da manutenção dos eucaliptos no
Parque do Rio Vermelho. Só entendo sua retirada como correta se
- e somente se - estiver mais do que atestado o plantio de
espécies nativas. Do contrário, deixem como está: pelo menos não
teremos mais condomínios e loteamentos sem infra-estrutura
lançando esgotos na praia; segundo: sou contra mais construções
nas praias e contra o asfaltamento da via de acesso à praia do
Moçambique. Mas sou favorável a construções na área já urbana,
que estejam de acordo com o Plano Diretor e desde que haja
instalação da infra-estrutura correspondente, principalmente o
que é mais difícil: saneamento; finalmente, defendo a manutenção
de gabaritos para construções (altura máxima de dois pisos para
as edificações) no Distrito do Rio Vermelho, pois do contrário
aqui também haverá grandes prédios e, com isto, maior
adensamento urbano e congestionamento. Também defendo maior
rigor na obrigatoriedade de construção de calçadas. Elas são uma
transição entre a propriedade privada (residências, comércio) e
a propriedade pública (ruas, vias) e representam a civilização
urbana desde o fim da Idade Média. Considero hipócritas os que
vivem de exigir que os governantes e os “ricos” façam sua parte
se eles próprios não dão uma módica quota de participação, como
aumentar o recuo da frente das residências. Os críticos da
desigualdade são muito bons para acusar os “poderosos”, mas na
hora do “pega pra capar” comportam-se pelo mesmo modelo de falta
de atitude de que acusam os outros. |