Entrevista março/2007:

   

Aquecimento global

 

Entrevista com Anselmo Heidrich

 

Na varanda do chalé no Vale do Sol, Anselmo e Ana Paula, curtem fins-de-semana de aldeia no Rio Vermelho. O cão-urso Nêgo, o pointer Gerê(mias) e o ex-filhote de rua Mestiço são companhia constante
 
Morador do Rio Vermelho, o professor de Geografia Anselmo Heidrich (41) é formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduando em Geografia Humana pela USP e crítico ferrenho de “eco-achismos”. Anselmo costuma dizer que há muito mais gente vivendo da ecologia do que para ela. E denuncia que há grande confusão entre previsão e profecia nos debates sobre o aquecimento global, defendendo soluções práticas para o problema.

Casado com a médica Ana Paula - o casal reside em um simpático chalé alugado no Vale do Sol - Heidrich já está integrando o Núcleo Distrital do Rio Vermelho no Plano Diretor Participativo.

Ele foi entrevistado pelo aluno Felipe Sil, que cursa o sétimo período de Jornalismo na Universidade Estácio de Sá, em trabalho cujo tema é a pergunta: Planeta condenado?

A entrevista, publicada no Jornal da Estácio (fev/07/no 30), sob o título de Previsão x Profecia, foi gentilmente cedida para publicação no Jornal Bairro, que abusou da cortesia e acrescentou duas questões, ao final.

Jornal da Estácio - Qual a sua visão sobre o aquecimento global?
Heidrich - Há três vertentes teóricas: a de que é induzido por causas humanas, como as emissões de gás carbônico e metano; a de que é natural, devido aos ciclos de resfriamento – Eras Glaciais – e, então, estaríamos vivendo um período de aquecimento por acabarmos de sair (em termos geológicos) da Era Glacial; e a de que é natural, mas incrementada pela ação humana (os dois fatores, em conjunto, atuariam neste sentido.)

Jornal da Estácio - Como você prevê o futuro do planeta no caso de um aumento do problema?
Heidrich - O pior cenário seria a elevação do nível dos oceanos e a retenção da vazão dos rios tropicais, nos quais grande parte da agricultura dos pobres é praticada. Daí, não restaria alternativa senão a fome e o controle populacional natural. O melhor cenário seria a adaptação tecnológica a longo prazo (um século), em que novas matrizes energéticas seriam popularizadas.

Jornal da Estácio - Quais as soluções para o aquecimento global?
Heidrich - Os sumidouros de carbono (locais e processos que eliminam o carbono). Embora não exista consenso científico sobre eles, eu os endosso, pois são grandes fontes de negócio e influxos de investimentos externos. Mas ninguém sabe ao certo o que virá... Qualquer informação com certeza neste campo é fruto de “achismos” e especulações de quem confunde previsão com profecia. Torço para que cientistas e governantes não se deixem seduzir pelo “catastrofismo” ambientalista de políticos e de ONGs.

Jornal da Estácio - O que você diria para aqueles que possuem uma visão mais apocalíptica do futuro do planeta?
Heidrich - Estudem. Não para pensar como eu, mas para poder propor algo. Há mais gente vivendo da ecologia do que para a ecologia. Como dizia o historiador Paul Veyne, “crenças baseadas na paixão prestam um mau serviço à própria paixão”. Não adianta propor mudanças sem conhecer em detalhes o que almeja mudar.

Jornal Bairro - Nossos defensores do meio-ambiente de plantão até já andam querendo trocar o tradicional nome de Caminho do Travessão por uma ainda bem distante “Costa do Moçambique”. Quais as projeções práticas da elevação do nível do mar, no pior dos cenários para o Norte da Ilha? O Travessão, por exemplo, pode virar praia?
Heidrich - Muitas das teorias em debate ainda não são comprovadas, entre outros fatores porque dependem de longos ciclos geológicos, muito mais lógicos e aceitos do que uma suposta elevação marinha. Ela até pode ocorrer, mas isso não é verificável no momento. Bem... se o nosso Caminho do Travessão vai virar praia eu não sei, mas não há dúvida de que consiste em excelente estratégia de marketing trocar um nome tradicional, típico da cultura local por outro... digamos, mais kitsch, como “Costa do Moçambique”! Tais “ambientalistas” estão “bem intencionados” sim. Mas não com causas ambientais e sim com a valorização de seus imóveis através de uma estratégia pobre e típica de campanhas superficiais, em que se mudam os nomes das coisas mas quanto aos problemas permanece tudo igual. Nada tenho contra quem quer valorizar seu bem imóvel, mas é hipócrita, para dizer o mínimo, utilizar o meio ambiente como justificativa para interesses particulares e escusos.

Jornal Bairro - Se o aquecimento global não é o prenúncio da catástrofe que vem sendo proclamada, e pensando apenas localmente, com os olhos postos no cenário atual do Norte da Ilha: cite três ações importantes, inclusive que devam ser tomadas como atitude cotidiana pelos cidadãos com o objetivo de melhorar já o meio social e ambiental em que vivemos.
Heidrich - Sou contra radicalismos. Contra o ambientalismo radical que pensa que somos um “erro da natureza” e contra o desenvolvimentismo radical que pensa que podemos incorporar espaços a revelia, sem planejamento e discussão. Em primeiro lugar, sou a favor da manutenção dos eucaliptos no Parque do Rio Vermelho. Só entendo sua retirada como correta se - e somente se - estiver mais do que atestado o plantio de espécies nativas. Do contrário, deixem como está: pelo menos não teremos mais condomínios e loteamentos sem infra-estrutura lançando esgotos na praia; segundo: sou contra mais construções nas praias e contra o asfaltamento da via de acesso à praia do Moçambique. Mas sou favorável a construções na área já urbana, que estejam de acordo com o Plano Diretor e desde que haja instalação da infra-estrutura correspondente, principalmente o que é mais difícil: saneamento; finalmente, defendo a manutenção de gabaritos para construções (altura máxima de dois pisos para as edificações) no Distrito do Rio Vermelho, pois do contrário aqui também haverá grandes prédios e, com isto, maior adensamento urbano e congestionamento. Também defendo maior rigor na obrigatoriedade de construção de calçadas. Elas são uma transição entre a propriedade privada (residências, comércio) e a propriedade pública (ruas, vias) e representam a civilização urbana desde o fim da Idade Média. Considero hipócritas os que vivem de exigir que os governantes e os “ricos” façam sua parte se eles próprios não dão uma módica quota de participação, como aumentar o recuo da frente das residências. Os críticos da desigualdade são muito bons para acusar os “poderosos”, mas na hora do “pega pra capar” comportam-se pelo mesmo modelo de falta de atitude de que acusam os outros.