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RESORTS X CRUZEIROS DE CABOTAGEM
Inicialmente, faz-se necessário estabelecer a diferença
entre cruzeiros internacionais e cruzeiros de cabotagem.
Os primeiros partem de portos internacionais e alcançam
o Brasil com passageiros estrangeiros, sendo que todos
os gastos aqui realizados – pelos navios e passageiros –
representam uma exportação de serviços, beneficiando a
balança do turismo do país.
Os segundos, despachados para o Brasil pelos seus
armadores durante a baixa sazonalidade nas suas áreas
centrais de atuação, operam exclusivamente na costa
brasileira, sendo os brasileiros o seu mercado alvo,
senão único. No caso, as receitas auferidas pelos navios
são contabilizadas como importação de serviços – pois os
recursos são transferidos para o exterior – penalizando
a balança de turismo, deficitária em US$ 1,5 bilhão em
2006, US$ 3,3 bilhões em 2007 e provavelmente US$ 5
bilhões em 2008.
Os benefícios gerados por esses navios são absolutamente
irrisórios.
Enquanto os resorts nacionais investiram R$ 1,5 bilhão
no Brasil para se estabelecer, gerando riquezas nas suas
comunidades, os cruzeiros restringem seus investimentos
ao exterior, nada agregando aqui no país.
No campo social, os resorts empregam direta e
indiretamente quase 60.000 brasileiros, resultando em 22
milhões de funcionários/dia (60.000 x 365 dias) pois
operam nos 12 meses do ano. Já os cruzeiros de
cabotagem, que atuam na costa brasileira, empregam no
máximo 2.750 brasileiros (25% de 11.000 tripulantes), do
que resulta menos de 250 mil brasileiros/dia, pois
operam no máximo três meses por ano (90% dos navios). A
participação dos navios – que no caso tem uma capacidade
superior de leitos (13.000 contra 11.000) – corresponde
a apenas 1,1% em relação aos resorts, conseqüentemente é
desprezível a sua contribuição social.
No campo tributário, os resorts contribuem para as
prefeituras, estados e país com R$ 150 milhões/ano, o
que não é o caso dos navios.
No campo econômico, os resorts gastam com a mão-de-obra
e insumos não menos que R$ 700 milhões/ano, contra
valores insignificantes despendidos pelos cruzeiros, que
se abastecem em zonas de “duty free”.
Ao contrário dos resorts, nos cruzeiros de cabotagem se
pratica todo o tipo de jogo de azar, em seus diversos
cassinos.
Uma assimetria desse tipo só existe no Brasil, colocando
em risco uma atividade econômica altamente empregadora
de mão-de-obra e consolidadora de regiões pobres e
inóspitas para qualquer outra atividade econômica.
Em 2004/2005 operaram na costa brasileira 6 cruzeiros de
cabotagem com 161 mil passageiros. Em 2005/2006 o número
aumentou para 9 navios e 230 mil passageiros. Em
2006/2007 foram 11 navios que transportaram 330 mil
pessoas. A previsão para 2007/2008 é de 14 navios, que
vão transportar 430 mil pessoas. Nesse ritmo, os resorts
flutuantes (cruzeiros de cabotagem) não tardarão a
transportar 1 milhão de passageiros brasileiros.
Enquanto isso, os resorts em terra, com capacidade para
hospedar 300 mil pessoas (25.000 leitos em 90 dias
considerando pacotes de uma semana) registraram apenas
180.000 clientes em 2007 (janeiro e fevereiro),
provavelmente 160.000 em 2008 e tudo leva a crer que a
queda continuará no rastro dessa assimetria absurda.
O CÂMBIO NO TURISMO BRASILEIRO
Por conta do real valorizado, as despesas de brasileiros
no exterior aumentaram 42% entre 2006 e 2007, saltando
de US$ 5,8 bilhões para US$ 8,2 bilhões, com o que o
déficit na conta de turismo mais que dobrou no período,
passando de US$ 1,5 bilhão para US$ 3,3 bilhões. Em 2008
esse déficit poderá alcançar a cifra de US$ 5 bilhões,
tal como já ocorreu em 1996, 1997 e 1998. Essa
extraordinária drenagem de recursos de um pais
emergente, como o Brasil, para países ricos, como os
países dos armadores, é inaceitável!
Não é difícil imaginar o que aconteceria se, ao invés de
uma provável cifra negativa de US$ 5 bilhões, em 2008 o
país lograsse obter um superávit de US$ 5 bilhões: as
suas regiões turísticas seriam fortalecidas, em especial
no Nordeste, com a criação de novos empregos, a fixação
das populações nas suas comunidades de origem e a
dinamização dos espaços geográficos que não possuem
outro atrativo econômico. Uma verdadeira revolução!
Essa brutal anomalia só podia jogar o Brasil para o
modestíssimo 59º lugar entre os 124 paises pesquisados
pelo Fórum Econômico Mundial, apesar de nossos
abundantes atrativos naturais e culturais e um povo
hospitaleiro e criativo.
O número de turistas que ingressaram no Brasil em 2006
foi de 5,1 milhões. Em 2007, deverá ser inferior a 5
milhões. Estamos na contramão, pois no mundo todas as
chegadas internacionais avançaram 6% de 2006 para 2007.
Enquanto atraímos menos de 5 milhões, apesar de todos e
bons esforços da Embratur, o México, com características
semelhantes às nossas, recebeu 22 milhões de turistas.
REPERCUSSÃO NACIONAL
Só para exemplificar, se o câmbio estivesse ao redor de
R$ 2,20 poder-se-ia estimar um ingresso de turistas nos
próximos anos de aproximadamente 10 milhões/ano e um
superávit na balança de turismo de US$ 5 bilhões. O que
isso significaria para o Brasil?
O não ingresso de 5 milhões de turistas/ano representa
uma perda de receita superior a US$ 5 bilhões/ano no
segmento de turismo, pois o gasto médio do turista
estrangeiro é superior a US$ 1.000/dia.
Imaginando-se a irrigação dessa vultosa importância ao
longo de todo o território nacional, em especial na zona
litorânea, com destaque para o Nordeste, beneficiando
áreas de baixo dinamismo econômico, fácil é de se
imaginar os efeitos favoráveis para o Brasil.
ASPECTO SOCIAL
Sob o aspecto social, a ocorrência de um câmbio de R$
2,20, que atrairia a vinda de mais 5 milhões de
turistas/ano, e considerando que cada gasto de US$
50.000 gera um emprego, conclui-se que o Brasil está
perdendo a oportunidade de gerar 100.000 empregos
diretos e 300.000 empregos indiretos.
Num país com milhões de desempregados, não podemos ficar
de braços cruzados assistindo a um verdadeiro tsunami
devastar a hotelaria brasileira, afetando centenas de
milhares de pessoas.
UMA SOLUÇÃO QUE ATENDA OS INTERESSES NACIONAIS
Sabemos que a taxa de câmbio se insere na política
macroeconômica do país e temos que nos submeter a ela.
Todavia, não há como preservar a competitividade do
turismo enquanto perdurar a atual situação.
Por outro lado, os resorts do Brasil não são contra os
cruzeiros de cabotagem, desde que as suas condições de
operação não criem uma inaceitável assimetria no mercado
turístico.
Para tanto, propõe-se que os cruzeiros de cabotagem
estejam sujeitos, pelo menos, às seguintes condições:
(i) utilizem na sua força de trabalho no mínimo 50% de
brasileiros; e (ii) componham a sua ocupação com pelos
menos 50% de estrangeiros. Essas duas medidas
introduziriam uma condição de concorrência um pouco mais
equilibrada entre os resorts de terra e os resorts
flutuantes. |