OS BRASILEIROS E A POLÍTICA

                                                                Parte II

Paulo G. M. de Moura

 

Nos Estados Unidos da América o povo admira os “self made men”; indivíduos que saíram da pobreza para a riqueza construída pelo trabalho e o espírito empreendedor. Lá o povo costuma eleger ricos para presidirem a nação. Por precaução, cercaram o poder de Estado de salvaguardas constitucionais que visam proteger a liberdade individual dos excessos dos detentores de poder político. E criaram uma legislação antitruste para proteger o direito de competir dos empreendedores, dos excessos dos detentores de poder econômico. Lá, os chamados “pais da pátria” lideraram a luta pela independência e criaram uma Constituição pensando no futuro de uma nação. Livres do absolutismo britânico, os norte-americanos transformaram uma ex-colônia numa união independente de estados voluntariamente federados - territorialmente gigantesca e multirracial na sua composição étnica - na maior potência econômica, política e militar do planeta.

Uma nação é fruto do espírito da alma coletiva de seu povo. Mas não há povos nem coletivos sem líderes. Grandes nações se fazem com grandes líderes. A história pessoal do ex-presidente Abraham Lincoln é emblemática. De origem humilde, Lincoln viveu de trabalho braçal até conseguir estudar Direito. Antes disso, sabia apena ler, escrever e fazer as quatro operações. Sem acesso a livros, Lincoln estudou a Bíblia; o único livro existente em sua casa. Com 22 anos, Lincoln deixou a casa dos pais para morar na aldeia de New Salem, Illinois, onde conseguiu emprego como balconista no comércio local, e em seguida, como agente postal. Depois de alguns anos elegeu-se deputado estadual e senador pelo estado de Illinois.

Ao longo de seu segundo mandato como deputado Lincoln completou seus estudos de Direito, recorrendo ao empréstimo de livros até obter licença para advogar. Durante seis meses por ano Lincoln advogou nos tribunais itinerantes que percorriam municípios de Illinois. Tornando-se conhecido assim, em 1846 Lincoln foi eleito para a Câmara Federal. Sem apoio popular, por fazer oposição ao presidente Polk, a quem culpava pela guerra com o México, Lincoln voltou a advogar sem tentar a reeleição. Voltou à política somente no final da década de 1850, quando, em campanha contra a escravidão disputou e perdeu a eleição para o Senado para o escravocrata Stephen Douglas. Perdeu a eleição, mas ficou conhecido em todo o país, condição a partir da qual concorreu à Presidência em 1860 em meio à construção do Partido Republicano, fundado em 1854.

Em 1861 Lincoln toma posse enfrentando o separatismo dos sulistas que ameaçaram retirar seus estados da Federação em caso de vitória de um abolicionista. Onze estados fizeram-no, de fato, formando a Confederação dos Estados da América, mesmo ante esforço conciliador do presidente eleito, que não conseguiu evitar a Guerra Civil.

Mesmo tendo perdido as primeiras batalhas e boa parte do seu capital político, Lincoln manteve suas convicções sem recuar, pois entendia que os Estados Unidos da América constiuíam um exemplo emblemático da capacidade de auto-governo de um povo. Quatro anos depois, a um custo de 600 mil mortos, o norte venceu. Em 1862 proclamou a liberdade dos escravos dos estados sulistas, conferindo sentido libertário à guerra civil e encaminhando a abolição deifitiva da escravatura nos EUA em 1865, ano de início de seu segundo mandato.

Em 14 de abril de 1865, duas semanas após o fim da guerra separatista, Lincoln foi assassinado. Após sua trágica morte angariou o respeito e admiração do povo norte-americano, firmando reputação de uma liderança construída na luta por causas políticas que fazem parte do “patrimônio genético” na nação que presidiu. Seu ideário, registrado em discursos e textos publicados, integra a biblioteca do pensamento democrático.

O Brasil foi colônia de uma das principais potências mundiais do século XVI, ao lado da Inglaterra, que colonizou os EUA na mesma época. Tornamo-nos “independentes” por herança de pai para filho; libertamos os escravos por “bondade de uma princesa”; tornamo-nos República através de um golpe de estado; dizemo-nos Federação, mas nossas supostas unidades federadas são subjugadas pelo governo central como se no tempo do Império ainda vivêssemos. Boa parte dos políticos que escolhemos para nos governar se alojam na máquina do Estado para enriquecer rápido e sem trabalhar. Antes isso era monopólio das oligarquias rurais. Hoje é privilégio das oligarquias políticas que controlam partidos, sindicatos, ONGs e fatias do próprio Estado.

O cidadão brasileiro Luis Inácio Lula da Silva, ex-sindicalista, é, sem sombra de dúvida, um dos líderes que ocupará a galeria dos grandes presidentes do Brasil. Ex-retirante nordestino, nosso presidente, eleito e reeleito pelo voto da maioria dos brasileiros; saiu da extrema miséria para um lugar privilegiado no estreitíssimo cume da nossa pirâmide social; visto como um homem do povo; pai dos pobres; “gente como a gente”. Um exemplo.

(Artigo publicado em 6 de janeiro de 2008
em www.professorpaulomoura.com.br.)
O autor é cientista político