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A orfandade do liberalismo

 

Aristóteles Drummond

 

Democracia especial, essa que montaram no Brasil pós-abertura. O povo é de centro, empreendedor e acredita na iniciativa privada. Apresentamos uma extraordinária mobilidade social e, no entanto, ninguém quer defender o empresário do achaque via impostos, fiscalização corrupta e legislação enlouquecedora na área ambiental e na trabalhista.

Alguns ideólogos de esquerda, que arranjaram um escudo para esconder suas convicções sob a denominação de “cientistas políticos”, deitam falação e enchem páginas defendendo maior presença do Estado na economia e fazendo insinuações de toda ordem ao empreendedor. O agronegócio é tido como predador; a indústria, como agressão ao meio ambiente; o comércio, uma forma fácil de ganhar dinheiro. Estes analistas, geralmente, vivem de salários pagos por entidades públicas ou ONGs subvencionadas pelo governo.

Os empresários que querem saciar suas ambições pessoais e vaidades disputam eleições por agremiações que negam o que são e o que fazem – socialistas uns, ambientalistas outros. Na fúria de deter o progresso, até projetos públicos, como nos casos de Belo Monte e das estradas Cuiabá-Santarém e Porto Velho-Manaus, entram na linha de fogo desse grupo voltado para o atraso.

A maioria do Congresso, de certa maneira, barra iniciativas despropositadas, mas por vezes se deixa inibir pelo apelo demagógico de alguns – como a proposta que diminui a carga horária semanal do trabalhador, quando deveríamos estar pensando em trabalhar mais e não menos.

Nas majoritárias, reina o que se convencionou chamar de “politicamente correto”, com exceções honrosas, como em São Paulo, onde o candidato Geraldo Alckmin enfrenta a patrulha de seu partido e completa sua chapa com o líder empresarial e homem público coerente e preparado, Guilherme Afif Domingos. Outro exemplo é Sérgio Cabral, no Rio, que enfrenta a marginalidade nas favelas, prestigia a livre empresa e consegue cotar bem o crédito internacional do Estado, fato singular no Brasil. E, em Minas, Antonio Augusto Anastásia começou o choque de gestão no primeiro mandato de Aécio Neves, virou vice, hoje é governador e candidato à reeleição, ao que parece com um vice da melhor tradição política mineira, de bom senso e equilíbrio, que preside a Assembleia, Alberto Pinto Coelho.

Até o ex-governador paulista e candidato José Serra irritou-se quando perguntado se privatizaria o Banco do Brasil e a Petrobras – que cumprem seu papel, mas estão ganhando espaços indesejáveis nos mercados em que atuam – e se manter o banco e a Petrobras não significa que não reste um estoque de empresas a serem colocadas à venda. Quem é liberal não condena a presença estatal, tantas vezes necessária, mas desconfia de quem nem quer tocar no assunto.

A crise campeia e a turma fica nesse duelo ideológico, elitista, indiferente ao sofrimento dos que não têm emprego e à angústia dos que querem empreender e são ameaçados pelos impostos – fiscais, responsabilidades trabalhistas e até a invasão de seu domicílio. Alguém precisa dar um norte aos brasileiros voltados para a produção, a geração de riquezas, empregos e impostos legítimos. Mas quando se devolve aos presidiários o direito do voto e a sociedade se cala, não dá para ficar otimista.

O autor é vice-presidente
da Associação Comercial
do Rio de Janeiro