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Um
impasse, que se arrasta há meses entre um comerciante de
Ingleses, a Prefeitura e o Deinfra - Departamento de
Infraestrutura do Estado, transformou em córrego uma das
margens da Rodovia João Gualberto Soares, num trecho de
cerca de 300 metros. O córrego forma um pequeno lago
diante de dois dos mais frequentados estabelecimentos
das redondezas: uma padaria e um sacolão de frutas e
verduras. Um aguaceiro brota debaixo de uma das lajotas
do estacionamento diante de um prédio comercial, e
escorre na direção Rio Vermelho-Ingleses.
Muitas
reclamações têm ecoado o aborrecimento não apenas dos
moradores próximos, mas também do comércio da
vizinhança. A Casan chegou a ser chamada para “consertar
um cano estourado”, mas os técnicos constataram que o
problema não era na sua rede.
Um
vizinho denunciou ao Ilha Capital que se tratava de água
do aquifero, vertendo de uma nascente debaixo do prédio
de cuja área de estacionamento a água jorra - limpa,
visivelmente cristalina.
De fato.
Um cano retira aquelas águas do subsolo da loja Rizzati
Móveis, um prédio novo, inaugurado em janeiro de 2009,
localizado no número 835, da rodovia, no Sítio de Cima.
Segundo o proprietário Ivanor Rizzatti, quando ocorrem
chuvas torrenciais, o subsolo do estabelecimento inunda,
pois ficou “enterrado” entre terrenos mais altos,
funcionando como um depósito da drenagem pluvial do
entorno. Rizzatti, então, instalou uma bomba elétrica
para esgotar a água. A bomba é acionada automáticamente
algumas vezes por dia. Rizzatti diz que, nas
circunstâncias, a lei lhe faculta esta providência: é
que a canalização de dragagem pluvial mais próxima de
sua loja fica na outra margem da rodovia, e o prédio não
foi conectado a ela.
O impasse
reside aí: durante meses Ivanor tentou fazer com que a
Prefeitura executasse a ligação. Como não obteve
sucesso, passou a jogar a água no leito da rodovia,
criando um grande transtorno no bairro.
O
engenheiro Rafael Hahne, diretor da Secretaria de Obras,
disse que meses atrás fez pessoalmente uma vistoria no
prédio de Ivanor. Hahne verificou que, na ocorrência de
marés altas ou chuvas torrenciais e numa combinação das
duas, haveria afloramento do lençol freático no local
escavado para a implantação do subsolo. O Sítio do
Capívari é uma planície assentada sobre um imenso
aquífero, encharcada de águas superficiais, que vem
sendo represadas por intensa ocupação urbana sem maiores
critérios. Para o engenheiro, prédios com subsolo sempre
apresentarão problemas naquela região.
Rizzatti
diz que contratou projeto de profissional qualificado,
obteve todas as licenças para a obra, e possui o
“Habite-se” do prédio. Ele garante que o subsolo nunca
foi questionado. Perguntado sobre por que a Prefeitura
autorizou projeto prevendo subsolo num terreno tão
sucetível aos níveis de chuvas e marés, o engenheiro da
Secretaria de Obras disse não saber, pois o
licenciamento é feito por outro órgão.
Rizzatti
reconhece as fragilidades do local. Ele revelou que,
para tentar reduzir os níveis de umidade, a fundação do
prédio foi feita em radier: uma laje contínua de
concreto armado, como uma plataforma que se estende sob
toda a área da construção, que a suspende e sustenta
sobre regiões alagadas. Consultado pelo Jornal Ilha
Capital, um arquiteto com escritório na região, que
prefere não ser identificado, disse que o radier pode
ajudar a reduzir a umidade, mas ele não tem o poder de
conter afloramentos de águas subterrâneas nem de
eliminar algadiços.
Pois é.
Certas forças da natureza sempre encontram formas de
impor-se. Por isso, o profissional não recomenda
implantar subsolo naquela região. “Pelo que sei”, disse,
“aquele prédio é o único com subsolo.” O arquiteto não
descarta uma falha de orientação do projetista, mas
lembra que é muito comum o dono do imóvel preferir
ignorar recomendações dos técnicos e adotar as suas
próprias ideias de leigo no desenvolvimento da obra, às
vezes até para reduzir custos. “Alguns clientes chegam
com projetos prontos na cabeça, só para o arquiteto
colocar no papel e assinar...” Na situação apresentada,
o sistema de bombeamento, segundo o profissional, é a
solução mais utilizada.
Seja água
do aquifero ou das chuvas, o motivo da inundação,
segundo Rafael Hahne, não tem nada a ver com a recusa da
Prefeitura em assumir a obra necessária para resolver o
problema de Rizzatti. O engenheiro lembrou que a João
Gualberto Soares é uma rodovia estadual e que o Deinfra
é o responsável por ela. O Deinfra, por sua vez, não
assume a execução da obra, mas concorda em organizar e
gerenciar o fechamento da rodovia para que o serviço
seja feito. O asfalto deve ser rasgado de um lado ao
outro para a colocação das tubulações, e depois refeito
pela Prefeitura.
Ivanor
Rizzati declarou que não quer continuar causando
transtornos à população. Por isso, em reunião na
Secretaria de Obras, na semana passada,
responsabilizou-se pelos custos da ligação do sistema de
exaustão do subsolo de sua loja à canalização de
drenagem pluvial da rodovia. As obras serão realizadas
por uma empresa terceirizada da Prefeitura,
supervisionada pela Secretaria.
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