POR UMA CIDADE LEGAL - Assumindo responsabilidades

 

Gustavo Vieira de Moraes e Souza

 

Antes de reclamar do governo, faça a sua parte.

Há tempos ouve-se falar sobre a questão dos loteamentos clandestinos na Ilha de Santa Catarina. Fala-se a respeito do mal que tal prática acarreta ao meio ambiente, a desordem urbanística que deriva desse “picar” as glebas de terra, riscando-se servidões ilegais como meios de acesso aos lotes mais distantes das vias públicas. Sem dúvida essas questões são relevantes, mas sobre o que ninguém, ou muito poucos, têm refletido, é acerca da responsabilidade do “comprador” por tal prática.

De início, quando se ouve notícia de mais um loteamento clandestino, ou se sabe da negociação de um “terreno de posse” pensa-se imediatamente na figura do loteador, inescrupuloso, que logrando burlar a lei passa a vender sua gleba de terra em forma de lotes, sem nada ter que investir em infra-estrutura, burocracia, impostos, etc., sem reservar a área legalmente prevista como destinada a espaços verdes, sem prever a metragem correta das ruas e acessos. É verdade, esse sujeito é um dos grandes responsáveis por esse mal, inclusive imputável criminalmente, mas ele não está sozinho.

Como nos ensinava o professor de Direito Penal, na época da faculdade, “o estelionato é um crime de dois “espertos”, um esperto tentando “se dar bem”, e outro, mais esperto, enrolando o primeiro”. No loteamento clandestino, me parece, ocorre o mesmo. O comprador do terreno ilegal, é comparável à vítima do estelionato, que de vítima não tem nada. Afinal, está buscando pagar um preço menor pelo imóvel, à custa da falta de regularidade do mesmo. Até sabe que no futuro terá de tentar regularizar o imóvel, que isso pode ser complicado e custoso, que está comprometendo a preservação do meio ambiente, mas como “bom brasileiro” imagina que vai “dar um jeitinho” depois. Ouço até algumas dessas vítimas, declarando que “o governo devia fazer alguma coisa, dar escritura pública pra todos”. Parece piada mas não é. O sujeito compra um lote irregular, por um preço irrisório, se comparado ao valor do lote regular (esse sim oriundo de loteamento no qual se gastou montes de tempo e dinheiro buscando aprovação de projetos, alvarás, autorizações dos órgãos ambientais, instalando-se infra-estrutura, reservando-se boa parte do terreno para área verde, etc.), e ainda tem a coragem de responsabilizar o “governo” pela bagunça urbanística a que ele mesmo deu causa.

O mínimo que se espera desses cúmplices dos loteamentos clandestinos, os compradores dos lotes “picados”, é que tenham a boa vontade de reconhecer sua condição de clandestinos, de “espertos” à margem da legislação vigente, e buscar a regularização de seus lotes. É possível, mais fácil e menos custoso do que se imagina. Organizem-se os compradores de lotes clandestinos e regularizem suas servidões, seu fornecimento de energia e água, sua situação registrária, etc., deixem de ser clandestinos, piratas, cúmplices da barbárie instalada pelos “espertos” loteadores clandestinos que nos legaram essa colcha de retalhos que hoje é a Ilha de Santa Catarina. E antes de reclamar do governo, lembrem que têm telhado de vidro, e façam sua parte.

 

O autor é advogado e professor,
especialista em Direito Imobiliário