|
As imagens de uma mãe que passa na rua e deixa seu
bebê em um contêiner de lixo, flagradas por câmeras
de segurança, foi exaustivamente reprisada e varou
fronteiras por esses dias. Também pautou reportagens
recordando casos semelhantes: um bebê encontrado em
saco de lixo, outro no valão do esgoto, outro
atirado sobre o muro. E muitos mais pipocam no
noticiário, sempre com a mesma questão: por que uma
mãe abandona seu filho? Respondo: porque ela, antes,
o acolheu.
Aqui está uma das diferenças básicas entre homens e
mulheres, impossível de ser ignorada, mesmo em tempo
de brados pela igualdade: mulheres são ventres, e a
Natureza criou o ventre para acolher a vida. Por sua
vez, homens ejaculam, isto é, lançam a vida para
longe de si. Assim, entre tantos canais de TV,
poucos se lembraram de fazer aquela pergunta
primeira de quem compreende o nascimento como fruto
da união de um casal: onde está o pai nessa história
de abandono? Respondo outra vez: ele simplesmente
não está, pois só pode abandonar quem um dia
acolheu.
Abrigar os filhos é tarefa precípua das mães. Assim,
quando um rapaz fecunda uma parceira e, com o perdão
da alusão anatômica, simplesmente tira o corpo fora,
pode fazê-lo sem lidar com igual parcela de culpa e
sofrerá cobrança moral menos rigorosa do que aquela
que será imputada à mulher. Isso é triste, injusto,
errado e precisa mudar (está mudando), mas é a
realidade – ou saiu a notícia de que o pai da menina
jogada no lixo também poderá ser denunciado por
abandono de incapaz? Ah, claro: ele não a abandonou,
pois sequer a acolheu.
Eis a razão de o fardo da anticoncepção pesar tanto
mais sobre os ombros das mulheres: ao nascerem,
foram condenadas ao acolhimento. Por isso, nada
libertou mais o sexo feminino do que os métodos
anticoncepcionais. E, melhor: sem culpa, colocando
as moças, finalmente, em pé de igualdade com os
rapazes. Afinal, mesmo o aborto (a vida é ou não
válida ainda na fase embrionária?) traz uma sombra
de abandono, fazendo sofrer. A saída indolor para o
impasse é entregar à mulher a chave das suas algemas
de falópio.
Faz muito tempo que a elite cultural e econômica
gera prioritariamente filhos planejados, usufruindo
de plena liberdade de escolha. Estivessem tantas
mulheres que sofrem pesadas restrições sociais
atendidas por programas sérios e eficientes de
conscientização em termos de fertilidade, não
haveria tamanho abandono infantil. Evitando a
acolhida inicial, quando involuntária ou
irresponsável, preveniríamos o desamparo.
Nossas crianças não estão jogadas no lixo somente no
sentido literal, aquele da notícia: também lá estão
quando, miseráveis, sucumbem em rotinas degradantes.
Contêineres metafóricos aguardam nossos anjos nas
drogas, na prostituição, na exploração do trabalho
infantil, nas mortes violentas, nas doenças que
brotam da falta de saneamento básico, na
mendicância. Todos podem ver isso sem a necessidade
das câmeras de vigilância. Mas as autoridades
escolhem não ver. |