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Cada pessoa que olha
para as cidades pode ver, ao mesmo tempo, muita
coisa de boa e de ruim em cada uma delas. A parte
boa está sempre nas facilidades e conveniências, que
vão de água encanada a galerias de arte e
restaurantes finos, de escolas a médicos de todas as
especialidades. Já a parte ruim vai da perda de
identidade à banalização dos crimes, passando por
uma coleção interminável de desvantagens que
aparecem todos os dias nas páginas policiais.
O economista Edward
Glaeser, professor da Universidade de Harvard, é um
entusiasta das cidades, um especialista reconhecido
internacionalmente no assunto e autor de Triumph of
the City: How Our Greatest Invention Makes Us Richer,
Smarter, Greener, Healthier and Happier (em
português, “O triunfo da cidade: Como nossa maior
invenção nos torna mais ricos, mais inteligentes,
mais verdes, mais saudáveis e felizes”, Editora
MacMillan, 456 páginas). Para ele, o que existe de
ruim nas cidades é o resultado de maus períodos de
administração.
Embora seja mais ou
menos óbvio para todos, raramente refletimos sobre
um aspecto que Glaeser destaca: nas cidades, a
maioria dos pobres está em situação melhor do que
estaria no campo. Ele pondera que em Lagos, por
exemplo, na Nigéria, a água encanada atende apenas a
75% da população. Mas na zona rural do país a
situação é muito pior.
Essas e outras
vantagens continuarão mantendo as populações nas
cidades, argumenta o professor. E as populações são
justamente a maior riqueza que elas têm: é a
concentração de gente que faz surgirem comunidades
como a Londres de Shakespeare ou o Silicon Valley de
Steve Jobs – o mesmo fenômeno que tornou Nova York
na capital financeira do mundo.
É justamente a carência
dessas comunidades, com o declínio da população, que
está transformando Detroit num lugar ruim de se
viver. As cidades e suas populações impulsionaram o
desenvolvimento do mundo com inovação e crescimento
econômico e proporcionaram vantagens que os homens
do campo nunca mais quiseram abandonar: distâncias
curtas entre a casa e o trabalho, ou entre a casa e
os outros locais de interesse, maior disponibilidade
de trabalho, mais recursos para sobrevivência e
atraentes conveniências.
Estudando o assunto,
Glaeser chegou à conclusão de que os administradores
urbanos acabam cometendo erros de dois grandes
tipos.
O primeiro,
especialmente nas áreas que estão em rápido
declínio, é investir em construções – obras
geralmente grandes, com arquitetura de primeira
classe e equipamentos sociais magníficos, na
esperança de que novos residentes e novos empregos
aparecerão em pouco tempo. O que ficou claro para
ele é que as obras em si não resolvem a questão do
declínio do interesse em certas regiões urbanas:
embora o investimento público seja vital para manter
ou atrair residentes e empresas, isso é apenas uma
parte de um conjunto de políticas que inclui
investimentos em educação, capacitação, policiamento
e outros serviços públicos.
Para piorar, existem
casos de deterioração urbana que são difíceis ou
impossíveis de resolver, como acontece com algumas
cidades industriais. Uma boa política de
redimensionamento dessas cidades pode dar bom
resultado, mas nada irá reconduzi-las às condições
ideais, ele afirma. Na opinião do autor, todo o
dinheiro gasto na reconstrução de New Orleans, após
a passagem do furacão Katrina, foi mal empregado e
deveria ter sido dado para as pessoas que perderam
suas casas, permitindo-lhes mudar para cidades onde
as perspectivas de vida fossem melhores.
O segundo grande erro
que Glaeser identifica é que os administradores
urbanos procuram frear os empreendimentos
imobiliários quando eles parecem estar andando
rápido demais. Ele admite que, de fato, é preciso
proteger o espaço, que é o item mais valioso do
ambiente urbano, mas frear muito esse crescimento –
limitando densidade, altura ou expansão horizontal –
faz com que os preços das casas subam de uma forma
brusca, beneficiando proprietários ricos e mais
ninguém.
Desse ponto de vista,
Glaeser faz uma crítica aos “conservacionistas”, que
marcam sua oposição ao desenvolvimento como
“correção ambiental”, quando na verdade essa
oposição beneficia a eles próprios. Em outras
palavras, ele entende que onde houver escassez de
terra, aumentar a densidade em termos de habitantes
por unidade de área é uma questão vital. Para ele,
cidades que não podem construir para os lados devem
mesmo construir para cima.
Houston conseguiu
construir nas duas direções e acabou se tornando a
quarta maior cidade dos EUA, embora as condições
durante esse desenvolvimento tenham sido ruins, em
termos de distribuição de renda para os pobres e
concentração de propriedades com os ricos.
No entanto, graças
principalmente aos preços acessíveis de habitação e
disponibilidade de empregos, Glaeser calcula que uma
família de padrão médio em Houston vive melhor do
que num subúrbio de Nova York.
Se ele tiver razão, São
Paulo, por exemplo, está no caminho certo, mas há
uma observação importante: qualquer das opções de
crescimento implica na construção de uma
infraestrutura apropriada de transporte público,
água, esgoto, telecomunicações e equipamentos
sociais (como as escolas e os postos de saúde, por
exemplo). Sem isso, a cidade não cresce – apenas
incha. |