Artigo Especial:

 

Eles dançam, você dança

Felipe Atxa

 

“Não perguntamos aos arquitetos como se salva as mil pessoas que vivem nas ruas da região (Luz, onde será construido o teatro].
Eles estão aqui porque a região é deserta.
O Brasil pode virar uma Suíça, mas essa população sempre existirá.”

João Sayad
(secretário estadual da Cultura de São Paulo)

 

 

 

Cracolândia: cenário de filme de terror escolhido para jogar fora alguns milhões de reais do contribuinte e sustentar a agenda esquerdista.

Na atualidade brasileira, o tal clamor que vem das ruas só é ouvido e respeitado quando pode servir de arma para a esquerda viabilizar suas estratégias de poder. De resto, nenhum governante dá a mínima para o que querem ou deixam de querer seus potenciais eleitores. Na confrontação com o poder, valem mais meia dúzia de chatos engajados, dezenas de telefonemas e uma centena de palmadinhas nas costas, do que 500 mil votos. Cidadão só presta em dia de eleição.

Somente um profundo desprezo pelas necessidades das pessoas comuns pode justificar um disparate como essa nova invenção da administração José Serra: construir um centro cultural para a “dança e a ópera”, na região da atual Cracolândia.

Para quem não é de São Paulo, a região é um pedaço do centro velho da capital, deteriorada pela ação do tempo e pelo descaso administrativo, onde os pobres moradores e comerciantes são obrigados a conviver, lado a lado e dia e noite nas ruas, com toda sorte de viciados perigosos, traficantes e trombadinhas, a respeito dos quais tanto o governo estadual quanto o municipal já desistiu de tomar providências. A Cracolândia configura-se num fenômeno tipicamente paulistano, assim como as favelas no caso do Rio de Janeiro. Aos poucos, ela vai sendo incorporada ao imaginário cultural da cidade. Não deve demorar o dia em que turistas idiotas farão caminhadas guiadas para conhecer os viciados morrendo pelas ruas.

Problema social

O próprio secretário da Cultura, João Sayad, admite que o projeto não eliminará a Cracolândia, que será naturalmente migrada para os bairros vizinhos. O projeto está orçado em mais de 300 milhões de reais e a impressão que fica é que o Estado tem máquinas de produzir dinheiro, e nenhum senso de prioridades. O clichê usado pela Prefeitura e pela polícia do estado é que a Cracolândia é um problema social e de saúde pública, e que não se pode simplesmente “prender” quem resolve se matar e oferecer perigo aos outros consumindo drogas no meio da rua. Se de fato o problema é apenas este, por que então não usar os 300 milhões de reais para instalar, na mesma área do centro cultural e em lugar dele, um centro de referência em saúde, em recuperação e desintoxicação de viciados em drogas que não têm para onde ir, com atendimento multidisciplinar, assessoria jurídica e assistência social, 24 horas por dia, 7 dias por semana?

A resposta é simples e cruel: porque, a bem da verdade, político nenhum dá a mínima para esses viciados, nem tampouco para os moradores da região, pagadores de impostos e esquecidos pelas autoridades, vivendo num cenário de filme de zumbi, sem poder sair às ruas após o dia acabar, com medo de serem atacados impunemente por alguém que não responde por seus atos e que, fatalmente, sequer será responsabilizado pelas violências que perpetrar.

É morbidez mesmo

Políticos como esses só dão ouvidos ao que podemos chamar de “lobby dos bonitinhos”: um punhado de atravessadores profissionais que têm acesso aos gabinetes dos vereadores e deputados, que conseguem agendar reuniões de suposto ”interesse público” e que, dessa maneira, pautam vigorosamente as políticas públicas: de forma até a convencer os administradores de que uma cidade como São Paulo necessita mais de um centro cultural de “dança e ópera” do que de resolver minimamente uma ameaça mortal à saúde pública e à segurança dos cidadãos que pagam impostos e vivem acuados, com medo e explorados por tributos sobre suas propriedades que o mesmo Estado desistiu de proteger.

Não há dúvida, também, de que da mesma forma como a sociedade não é capaz de absorver a mão-de-obra e as necessidades dos viciados e dos moradores dessas regiões devastadas, não é tampouco capaz de absorver a mão-de-obra de artistas, dançarinos e agentes culturais que precisam do subsídio do Estado para viver confortavelmente, amparados em empregos estáveis e bolsas de estudo e de trabalho. Ou seja: o Estado faz uma escolha nítida, entre salvar a vida dos viciados e dos moradores, ou permitir que os “artistas” sem platéia vivam com conforto, optando pela segunda alternativa.

A construção e a manutenção de um centro cultural de 300 milhões de reais permitirá que uma centena de privilegiados progridam e façam negócios a partir do dinheiro público, não importando que eles estejam cercados de miséria, degradação e desespero por todos os lados. O projeto arquitetônico prevê salas de espetáculo envidraçadas: por dentro, o luxo e a ostentação de uma minoria privilegiada, que tem acesso e influência sobre o destino do erário público; lá fora, olhos esbugalhados, bocas escancaradas, viciados e contribuintes, lutando por uma vida sem sentido, escravizados pelo regime tributário, esquecidos pelo contexto cultural, atrasados para o trem da História. Alguns chamam a isso de “política pública para a cultura”. Eu prefiro chamar de morbidez mesmo.