Julho 2010

Tradição

Os últimos carros de boi

“Galego da carroça”, como é conhecido o manézinho Valmir Anísio Soares (37), reconhece que desperta admiração e aborrecimento. “Os turistas param o carro para me conhecer e tirar fotografias para levar de recordação das férias na Ilha. Mas tem gente daqui que reclama do rangido das rodas quando eu passo”, conta o filho do seu Anísio Rodolfo e da dona Irondina Maria, ambos também nativos da Ponta das Canas, Norte da Ilha.

Galego vai em frente, seguindo a tradição e transmitindo-a ao filho: quando Guilherme (12) não está na aula ou fazendo as lições de casa, está trabalhando com o pai na carreta. Tainá (10) ajuda a mãe em casa. “Meus pais me criaram assim, crio meus filhos assim e gosto do que faço”, diz.

Valmir faz fretes com sua carreta. Carrega de tudo: faz mudança residencial, comercial, transporta animais, retira podas, recolhe lenha e recicláveis. Ele acha que ganha mais com este trabalho do que ganharia em uma outra profissão qualquer. E se sente em casa durante todo o “expediente”.

“A vantagem da carreta é que vou a lugares onde não se vai de outro jeito”, garante. Em Florianópolis é muito comum que os caminhos terminem em verdadeiras picadas, muitas vezes atravessando morros, costeando mangues, o mar e cruzando a areia. Mas os bois do Galego não ligam para a diferença entre asfalto e estrada de chão.

Entre um carreto e outro, Valmir se dedica ao projeto de reconstrução do engenho da família, que ele quer transformar em outra atração turística para Florianópolis.

A linda parelha da foto é Baiano e Faceiro, mas um amigo pediu e Anísio construiu uma carreta nova, atrelou outra parelha - Estrelo e Picaço -, e vendeu o conjunto antigo, completo, para o amigo. “A Festa de São Pedro estava chegando e tinha só uma carreta de boi para o desfile”, justificou.

Agora são dois rangidos diferentes para aborrecer alguns moradores de Ponta das Canas. Mas, em compensação, há duas lindas carretas de boi para que os turistas levem consigo lembranças de mais uma tradição da Ilha que está se perdendo.

 

 

 
     
 

O carro de boi no Brasil

 
     
 

Um dos mais primitivos e simples meios de transporte, foi introduzido pelos colonizadores portugueses e logo difundiu-se por todo o país para o transporte de cargas diversas e também de pessoas. Ainda hoje é utilizado em algumas regiões.

O rangido característico do carro de bois, chamado de canto, lamento ou gemido, faz parte da nossa cultura, anuncia a sua chegada antes mesmo que os olhos possam vê-lo.