Artigo

 

O mito da cordialidade

 

João Aderson Flores

 

Houve um tempo em que se acreditava no brasileiro cordial, idéia que fazia parte da ficção que se denomina “identidade nacional”.

A força das crenças – até que elas sejam desmentidas pelos fatos – confere realidade ao que não existe. Foi preciso que a violência cotidiana ameaçasse a segurança de cada um para que a tal cordialidade dos brasileiros ruísse plenamente. Hoje, o Brasil ocupa lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo, considerando aqueles com histórico recente de guerras ou terrorismo – como Eslovênia, Croácia, Iraque, Irlanda do Norte, Israel, Afeganistão e Paquistão. Não nos damos conta que, todo santo dia, 130 pessoas são assassinadas e outras 80 são vítimas de acidentes de trânsito, e inclusive elevado número de crimes passionais.

Os números são expressivos. È como se um “Boeing” caísse diariamente no País. E, mesmo assim, há um silêncio passivo, complacente, conformado.

No período 2002/2005, o saldo estimado é de quase 200 mil assassinatos e 120 mil mortos no trânsito. O Banco Mundial calcula que o custo dessa violência possa ter custado mais de R$ 700 bilhões, ou 10,5% do PIB. Na estimativa, no entanto, não está calculado o sofrimento humano, a dor emocional e a desesperança, que não tem preço.

Por que alguém mata outro ser humano por um par de tênis? O que leva um jovem de classe média a agredir empregadas domésticas, índios, prostitutas, travestis, em pontos de ônibus? Por que um adolescente abre mão de seu futuro agredindo pessoas mais fracas?

Um estudo recente sobre as raízes psicobiológicas de violência física concluiu que o comportamento violento não pode ser atribuído a uma única causa – como, por exemplo, tendências inatas, patologia, frustração, ambiente desfavorável ou experiências dolorosas. É preciso considerar sempre a combinação de fatores que se reforçam e se influenciam mutuamente.

Essa tese traz também uma boa notícia: uma única variável que reforça a tendência à violência pode ser compensada por mecanismos positivos. A prevenção pode ter início na infância, com medidas aparentemente simples: cuidado, atenção e ajuda profissional.

A esse respeito, o livro do afegão Khaled Hoseini – “O Caçador de Pipas” – apresenta uma idéia que perpassa todos os capítulos: a de que, embora não se possam desfazer os erros cometidos ao longo da vida, é possível, sim, repará-los. A conclusão do livro, com a imagem das pipas coloridas voando no céu de São Francisco, evoca a esperança de que os valores positivos possam um dia triunfar.

O autor é professor e psicólogo