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Houve um tempo em que se
acreditava no brasileiro cordial, idéia que fazia parte
da ficção que se denomina “identidade nacional”.
A força das crenças – até
que elas sejam desmentidas pelos fatos – confere
realidade ao que não existe. Foi preciso que a violência
cotidiana ameaçasse a segurança de cada um para que a
tal cordialidade dos brasileiros ruísse plenamente.
Hoje, o Brasil ocupa lugar de destaque entre os países
mais violentos do mundo, considerando aqueles com
histórico recente de guerras ou terrorismo – como
Eslovênia, Croácia, Iraque, Irlanda do Norte, Israel,
Afeganistão e Paquistão. Não nos damos conta que, todo
santo dia, 130 pessoas são assassinadas e outras 80 são
vítimas de acidentes de trânsito, e inclusive elevado
número de crimes passionais.
Os números são expressivos.
È como se um “Boeing” caísse diariamente no País. E,
mesmo assim, há um silêncio passivo, complacente,
conformado.
No período 2002/2005, o
saldo estimado é de quase 200 mil assassinatos e 120 mil
mortos no trânsito. O Banco Mundial calcula que o custo
dessa violência possa ter custado mais de R$ 700
bilhões, ou 10,5% do PIB. Na estimativa, no entanto, não
está calculado o sofrimento humano, a dor emocional e a
desesperança, que não tem preço.
Por que alguém mata outro
ser humano por um par de tênis? O que leva um jovem de
classe média a agredir empregadas domésticas, índios,
prostitutas, travestis, em pontos de ônibus? Por que um
adolescente abre mão de seu futuro agredindo pessoas
mais fracas?
Um estudo recente sobre as
raízes psicobiológicas de violência física concluiu que
o comportamento violento não pode ser atribuído a uma
única causa – como, por exemplo, tendências inatas,
patologia, frustração, ambiente desfavorável ou
experiências dolorosas. É preciso considerar sempre a
combinação de fatores que se reforçam e se influenciam
mutuamente.
Essa tese traz também uma
boa notícia: uma única variável que reforça a tendência
à violência pode ser compensada por mecanismos
positivos. A prevenção pode ter início na infância, com
medidas aparentemente simples: cuidado, atenção e ajuda
profissional.
A esse respeito, o livro do
afegão Khaled Hoseini – “O Caçador de Pipas” – apresenta
uma idéia que perpassa todos os capítulos: a de que,
embora não se possam desfazer os erros cometidos ao
longo da vida, é possível, sim, repará-los. A conclusão
do livro, com a imagem das pipas coloridas voando no céu
de São Francisco, evoca a esperança de que os valores
positivos possam um dia triunfar.
O autor é professor e psicólogo
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