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Em 2008, a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre
Mark Boyle, o economista irlandês que queria provar que
os princípios que regem o capitalismo estão errados,
vivendo por um ano sem dinheiro. O desafio já dura mais
do que o previsto e, mais de 18 meses depois do início,
Boyle comemora o que considera o sucesso da sua
experiência.
O estilo de vida do irlandês inclui apenas o básico para
a sua sobrevivência. Vivendo em um trailer nas
proximidades da cidade de Bristol, na Inglaterra,
utiliza-se de um fogão à lenha, um chuveiro com painel
solar, uma bicicleta e um buraco no chão como banheiro.
Não se pode discutir o que proporciona felicidade para
cada indivíduo. Gostos são individuais e é mesmo
provável que Boyle seja mais feliz agora que vive de
acordo com as suas crenças. Mas alguns detalhes
importantes parecem ter sido deixados de lado pelo
economista nas suas conclusões a respeito do
capitalismo. Ele mesmo fabricou o trailer, construiu a
bicicleta, ou produziu o material do saco que usou para
construir o seu rústico chuveiro? Esquece-se Boyle de
que a maioria das matérias-primas das quais se utiliza
para as suas atividades diárias resultam da interação
entre indivíduos e mercadorias promovida pelo próprio
capitalismo.
Em seu ensaio “Eu, o lápis: minha árvore genealógica”,
Leonard Read ilustra como indivíduos que nem mesmo se
conhecem e que moram a enormes distâncias ao redor do
mundo são capazes de produzir bens da maneira mais
eficiente. A ideia de Boyle é planejar e controlar o que
produz e consome. Mas planejamento algum pode substituir
a eficiência gerada pelo dinamismo do capitalismo.
A busca da autossuficiência é ineficiente. Boyle quer
voltar à natureza: produzir o que come e construir o que
usa. Mas, embora proporcione maior satisfação a ele, a
experiência mostra como produzir ineficiência e
desperdício — exatamente o oposto do que ele se propôs a
provar. O tempo necessário para que, por exemplo, um
cientista criasse sozinho um ambiente para a sua própria
subsistência roubaria-lhe o tempo que seria usado para
que descobrisse a cura de doenças. Do mesmo modo, não
restaria espaço na agenda do médico para socorrer os
doentes se o seu dia fosse preenchido por atividades
para garantir a sua sobrevivência.
Mark Boyle pretende escrever um livro contando sua
experiência e com o dinheiro (sim, dinheiro!) ele
pretende comprar um pedaço de terra onde possa reunir
adeptos da sua ideias. Comunidades onde indivíduos
voluntariamente se reúnam para viver como bem desejarem,
de acordo com os seus princípios e crenças, são
possíveis e até mesmo desejáveis. Gostos e preferências
devem, sim, ser respeitados. E a boa notícia é que, em
uma sociedade regida pelos princípios liberais, isso é
possível.
A proposta de Boyle pode ser uma alternativa saudável,
provedora de satisfação e bem-estar ao seus adeptos, mas
não prova o seu ponto de vista e está longe de ser uma
receita a ser adotada por todos se a humanidade deseja
continuar progredindo e ser cada vez mais eficiente.
Elisa Lucena Martins é formada em
Ciências Econômicas
pela Universidade Federal de Santa Maria e
conquistou em 2009 o VI Prêmio Donald Stewart Jr.,
concedido pelo Instituto Liberal (Rio de Janeiro).
www.ordemlivre.org
19 de Agosto de 2010 |