Artigo

 

FHC: um engano sobre o pensamento conservador

Aristóteles Drummond

 

A falta de um pensamento conservador não seria consequência da ação sistemática da “patrulha vermelha”, ainda forte nos veículos de comunicação? O noticiário brasileiro sempre foi tendencioso, ao limitar a voz dos opositores abertos das esquerdas.

 

 

 

Excelente a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a Guilherme Malzoni Rebello, no último número da DC (Dicta & Contradicta), publicação de alto nível, que se esforça para não ficar na repetição das esquerdas, inclusive das que são ou se dizem moderadas. FHC confirma o intelectual que é, e homem de equilíbrio – o que certamente permitiu consolidar o consenso das forças de esquerda que formaram o PSDB, que seria pela social democracia não fosse o grande número de egressos do marxismo-leninismo que abriga.

Mas o isolamento das esquerdas, especialmente no meio intelectual, deve-se ao fato de seus integrantes se considerarem os únicos seres pensantes do mundo. Quando FHC diz que não existe pensamento conservador nem político conservador no Brasil, comete um engano. A começar pela maioria parlamentar, há muitas legislaturas, sempre com o centro prevalecendo, mesmo que a duras penas – como na Constituinte, quando o chamado “centrão” derrotou as esquerdas. Isso não impediu esta Carta dúbia, detalhista, e em alguns pontos ridícula, como em mais de uma ocasião afirmou Roberto Campos, intelectual, economista e político liberal-conservador.

São, os conservadores, ampla maioria no Parlamento Europeu e o que se fez de progressista na Europa se deve à coragem de Margareth Thatcher, que combinada a outro conservador, Ronald Reagan, fizeram a grande Revolução positiva do século passado, sob a proteção de João Paulo II , o Papa estadista, que pôs fim à tolerância do Vaticano para com os regimes totalitários.

Temos um bom numero de intelectuais que não temem enfrentar os comunistas. FHC pode até ser um homem de centro, com tempero de esquerda, mas nunca condenaria os comunistas. Ao contrário, se envaidece de que, desde sua eleição, todos os pleitos são disputados entre candidatos de esquerda. A própria entrevista revela as diferenças entre a esquerda de FHC e o pensamento conservador. Nunca um conservador teria admiração por Nelson Mandela, que com sua primeira mulher Winnie, foi conivente com casos de corrupção amplamente conhecidos. Mandela é notoriamente ligado ao antigo regime de Moscou e se casou, pela segunda vez, com a viúva de Samora Machel, líder comunista de Moçambique, responsável pela ditadura e pela miséria que aquele território vive desde 1974.

O pensamento conservador brasileiro é evidentemente majoritário, na leitura atenta de Gilberto Freire. Conservador é quem defende a ordem, o progresso pela via do empreendedorismo, pelo Estado menor, tributação inteligente e disciplina na vida do País. Um conservador jamais abonaria 57 dias de greve ilegal, imoral e ilegitima de funcionários públicos, inclusive professores.

Talvez o ex-presidente, pudesse indagar de seus companheiros de ideologia se a falta de um pensamento conservador não seria consequência da ação sistemática da “patrulha vermelha”, ainda forte nos veículos de comunicação. O noticiário brasileiro sempre foi tendencioso, ao limitar a voz dos opositores abertos das esquerdas. Espaço é dado aos “bem comportados” que aceitam, por exemplo, ignorar uma avaliação justa dos vinte anos de autoritarismo que, apesar dos excessos (de ambos os lados), contribuiram para criar a base para as medidas econômicas que seriam implementadas mais tarde, e que deram ao Brasil o que existe de infraestrutura.

Para os conservadores, os grandes agentes da paz e da ordem social são os empreendedores, do pequeno comerciante aos grandes conglomerados. Na livre empresa se emprega, se trabalha, se paga impostos e se aplica a meritocracia . No Estado, os erros e “generosidades” são pagos pelo explorado contribuinte.

Guilherme Malzoni Rebello pode ter aberto um espaço para outras vozes, que mesmo sem o brilho de FHC, devem ser ouvidas, até pelo que representam como maioria silenciosa da nação. O Brasil e a democracia só têm a ganhar com o debate. Até por estarmos em uma evidente encruzilhada.

O autor é jornalista
e articulista do Diário do Comércio,
da Associação Comercial de S. Paulo