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Excelente a
entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a
Guilherme Malzoni Rebello, no último número da DC (Dicta
& Contradicta), publicação de alto nível, que se esforça
para não ficar na repetição das esquerdas, inclusive das
que são ou se dizem moderadas. FHC confirma o
intelectual que é, e homem de equilíbrio – o que
certamente permitiu consolidar o consenso das forças de
esquerda que formaram o PSDB, que seria pela social
democracia não fosse o grande número de egressos do
marxismo-leninismo que abriga.
Mas o
isolamento das esquerdas, especialmente no meio
intelectual, deve-se ao fato de seus integrantes se
considerarem os únicos seres pensantes do mundo. Quando
FHC diz que não existe pensamento conservador nem
político conservador no Brasil, comete um engano. A
começar pela maioria parlamentar, há muitas
legislaturas, sempre com o centro prevalecendo, mesmo
que a duras penas – como na Constituinte, quando o
chamado “centrão” derrotou as esquerdas. Isso não
impediu esta Carta dúbia, detalhista, e em alguns pontos
ridícula, como em mais de uma ocasião afirmou Roberto
Campos, intelectual, economista e político
liberal-conservador.
São, os
conservadores, ampla maioria no Parlamento Europeu e o
que se fez de progressista na Europa se deve à coragem
de Margareth Thatcher, que combinada a outro
conservador, Ronald Reagan, fizeram a grande Revolução
positiva do século passado, sob a proteção de João Paulo
II , o Papa estadista, que pôs fim à tolerância do
Vaticano para com os regimes totalitários.
Temos um bom
numero de intelectuais que não temem enfrentar os
comunistas. FHC pode até ser um homem de centro, com
tempero de esquerda, mas nunca condenaria os comunistas.
Ao contrário, se envaidece de que, desde sua eleição,
todos os pleitos são disputados entre candidatos de
esquerda. A própria entrevista revela as diferenças
entre a esquerda de FHC e o pensamento conservador.
Nunca um conservador teria admiração por Nelson Mandela,
que com sua primeira mulher Winnie, foi conivente com
casos de corrupção amplamente conhecidos. Mandela é
notoriamente ligado ao antigo regime de Moscou e se
casou, pela segunda vez, com a viúva de Samora Machel,
líder comunista de Moçambique, responsável pela ditadura
e pela miséria que aquele território vive desde 1974.
O pensamento
conservador brasileiro é evidentemente majoritário, na
leitura atenta de Gilberto Freire. Conservador é quem
defende a ordem, o progresso pela via do
empreendedorismo, pelo Estado menor, tributação
inteligente e disciplina na vida do País. Um conservador
jamais abonaria 57 dias de greve ilegal, imoral e
ilegitima de funcionários públicos, inclusive
professores.
Talvez o
ex-presidente, pudesse indagar de seus companheiros de
ideologia se a falta de um pensamento conservador não
seria consequência da ação sistemática da “patrulha
vermelha”, ainda forte nos veículos de comunicação. O
noticiário brasileiro sempre foi tendencioso, ao limitar
a voz dos opositores abertos das esquerdas. Espaço é
dado aos “bem comportados” que aceitam, por exemplo,
ignorar uma avaliação justa dos vinte anos de
autoritarismo que, apesar dos excessos (de ambos os
lados), contribuiram para criar a base para as medidas
econômicas que seriam implementadas mais tarde, e que
deram ao Brasil o que existe de infraestrutura.
Para os
conservadores, os grandes agentes da paz e da ordem
social são os empreendedores, do pequeno comerciante aos
grandes conglomerados. Na livre empresa se emprega, se
trabalha, se paga impostos e se aplica a meritocracia .
No Estado, os erros e “generosidades” são pagos pelo
explorado contribuinte.
Guilherme
Malzoni Rebello pode ter aberto um espaço para outras
vozes, que mesmo sem o brilho de FHC, devem ser ouvidas,
até pelo que representam como maioria silenciosa da
nação. O Brasil e a democracia só têm a ganhar com o
debate. Até por estarmos em uma evidente encruzilhada.
O autor é jornalista
e articulista do Diário do Comércio,
da Associação Comercial de S. Paulo |