|
O caro
leitor que me tem acompanhado sabe que, nos últimos
artigos, tenho argumentado sobre o estado de alucinação
em que se encontra a política – e por decorrência a
Administração Pública – no Brasil. Vimos que autores
como Ortega y Gasset e Voegelin têm a resposta teórica
aos problemas existenciais que estamos a viver. De fato,
a situação brasileira atual não é original, ela se
repete como outras inúmeras dos últimos dois séculos.
Onde alguma forma de socialismo foi implantada a
alucinação tomou o lugar da realidade, como na ex-URSS e
na Alemanha de Hitler, para ficarmos apenas nesses casos
mais emblemáticos.
Essencialmente podemos dizer que no Brasil também temos
que registrar a rebelião das massas, vista e estudada
por Ortega, e também a situação de alienação política,
relatada por Voegelin. Uma situação sonambúlica tomou
conta do nosso país, de sorte que toda a classe
dirigente move-se dentro de um “como se assim fosse”,
uma irrealidade substituta do real. Um exemplo bastante
acabado dessa situação está nas análises e nas propostas
para o enfrentamento da questão educacional.
É correto
dizer que existe um elemento de ligação entre a má
remuneração do professorado das escolas públicas e a
qualidade de ensino? Sim, mas esta questão esconde
outras, muito mais graves e de solução muito mais
difícil. Quando um líder político propõe, de pronto, uma
elevação geral dos salários dos professores sem
aprofundar o diagnóstico está na verdade produzindo uma
falsa solução, que deveria vir por último, e não por
primeiro, como medida saneadora da situação do ensino
público.
A primeira
causa da má qualidade do ensino está na má qualidade dos
professores, algo acaciano. Os alunos não podem ser
responsabilizados pela falta, seja de vocação, seja de
treinamento e mesmo de qualificação de seus mestres.
Mais das vezes vemos faltar até mestres das cadeiras
relativas às ciências exatas, de sorte que a imprensa
tem noticiado a esdrúxula situação de alunos diplomados
no ensino médio sem ter tido a devida carga horária de
matemática, biologia, física e química.
A
indigência intelectual de parte considerável do
professorado não pode ser negligenciada, pois o fato
contribui para a perpetuação da situação. Aliado ao
regime de servidor público dos professores tem-se a
construção de uma estabilidade no emprego incompatível
com os interesses dos alunos. Tenha vocação ou não,
tenha competência ou não, o professor da rede pública
continua no seu posto até a morte natural ou a
aposentadoria. Ora, sem uma porta de saída para os
incompetentes a elevação dos salários apenas irá
contribuir para a perpetuação da situação indesejada.
Então a discussão precisa começar sobre aquilo que
compete ao Estado fazer: se produzir os meios para que
alunos carentes possam ter boas escolas ou se
administrar uma gigantesca corporação de ofício, cheia
de vícios, e um vasto patrimônio que são as edificações
mobiliadas que servem de escolas. Deve o Estado
privilegiar o que é meio ou o que é fim?
Pareceria
muito mais racional privatizar esse vasto patrimônio e,
na esteira, mudar o regime de assalariamento da massa de
professores, eliminando a indesejável estabilidade no
emprego que retém funcionários públicos tornados
professores. Aqui teríamos, de uma tacada só, a
maximização da eficiência econômica e a eliminação dos
falsos mestres, os pobremente vocacionados ou mal
treinados para a função, e sua substituição por gente
talentosa. Em troca, o Estado proveria para as futuras
escolas privatizadas vouchers para os alunos carentes,
em princípio toda população que hoje constitui a
clientela do ensino público. Bem sabemos que aqueles que
podem atualmente não matriculam seus filhos nas escolas
públicas de ensino médio e fundamental.
Outra
medida preliminar da maior importância é criar uma
estrutura de treinamento e reciclagem dos professores,
de modo a mudar o foco que se tem hoje. E qual é este? A
priorização da militância política em detrimento da
formação para a maturidade intelectual, que enseja a
ampliação dos horizontes dos professores. Praticamente
todo o professorado hoje se tornou massa de manobra
política de sindicalistas e militantes revolucionários,
transformando-se no vetor de transmissão da doença
revolucionária. O compromisso dos professores deixou de
ser a educação para ser o adestramento para uma insólita
“transformação” social. São formadores de militantes.
Uma
educação humanista de profundidade é o antídoto
necessário para esse nefasto viés revolucionário que
hoje o professorado carrega. O amadurecimento
intelectual dos mestres ensejaria uma imediata melhoria
da relação ensino/aprendizado. A porta de saída aberta
com a mudança no regime jurídico de contratação dos
professores produziria um verdadeiro milagre
educacional.
O que
podemos concluir é que as idéias políticas alucinadas,
de viés socialista, só podem produzir soluções farsescas
para a questão educacional. Elevar o salário dessa massa
de funcionários públicos tornados professores significa
meramente o reforço do status quo. Qualquer observador
honesto da situação educacional brasileira sabe disso. A
proposta é uma pura farsa porque ajuda a fechar a porta
de saída daqueles que carecem da verdadeira vocação
pedagógica. Como está hoje ser professor é um mero
esperar de uma aposentadoria integral. O preço que se
paga por isso é o sacrifício da educação da juventude, a
quem se nega um ensino adequado, de qualidade.
(07.ago.2008) |