Democracia não é barbárie

 

Anselmo Heidrich

 
     
   

“Falar duma mudança social capaz de eliminar o modo de produção e de vida capitalista é o mesmo que falar da ‘revolução do proletariado a nível mundial’, pois só esta classe específica é capaz de, sob uma perspectiva de produção, transformar a sociedade de classes numa sociedade sem classes e racional. Sem classes porque os meios de produção estão nas mãos do Estado administrado não pelos capitalistas, mas sim pelos trabalhadores – os produtores de riqueza. De forma democrática e racional, porque as decisões são vindas da grande massa da população e aplicadas em seu interesse que são, em última análise, os trabalhadores.”

   
         
   

Gert Schinke. Ecologia Política.
Porto Alegre : Tchê! Editora Ltda, 1986, p.40

   

 

 

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Alguém acredita que para atingirmos uma maior sustentabilidade social e ambiental precisemos acabar com o atual modo de produção, o capitalista? Ou que precisemos eliminar os capitalistas? Pois bem, tais considerações juvenis não são de um movimento estudantil ou de um partido revolucionário que almeja a tomada violenta do poder, mas de um dos representantes distritais no Núcleo Gestor do Plano Diretor Participativo, o do distrito do Pântano Sul. Agora, eu pergunto a você, cidadão de Florianópolis: em que medida alguém que defenda tais sandices pode contribuir produtivamente para o combate à poluição hídrica, atmosférica, sonora etc.? Quer dizer, então, que basta mudarmos a posse dos tais meios de produção e tudo, em um passe de mágica, mudará também?

O que Schinke, convenientemente, “esquece” de dizer é que, enquanto os países socialistas são exemplos de massiva destruição na Europa e Ásia, o capitalismo ocidental mudou e aperfeiçoou-se, adotando rigorosas legislações ambientais (o que ainda ocorre e evolui a pleno vapor). Não por acaso, países ex-socialistas como a Polônia, têm apenas 4% de água potável em seu território nos dias de hoje; o Cazaquistão, uma ex-república soviética, não possui mais o chamado Mar de Aral: ele foi tão intensamente explorado em suas águas para irrigação do algodão, que já secou, deixando como herança uma trágica paisagem que poderia figurar em um filme de ficção científica de um mundo pós-Apocalipse; não por acaso, o pior acidente nuclear que a humanidade já conheceu ocorreu na Ucrânia, nos tempos em que era uma das repúblicas da extinta União Soviética também. Tudo sob os auspícios de sua sociedade “sem classes” socialista (mas, com uma corrupta e despótica cúpula dirigente), cujos efeitos são sentidos até os dias de hoje, quando bebês ainda nascem com defeitos congênitos e em série. O socialismo, ou comunismo como preferirem, deixou um saldo tenebroso de 100 milhões de mortos ao longo de sua existência. Perseguições, execuções, genocídio. E também o chamado ecocídio.

Posso compreender o pensamento de Gert, assim como posso compreender as motivações de algum serial killer, mas o que não posso, definitivamente, é concordar com ambos. Se, dispondo de algum poder efetivo para executar a sua revolução, ele fará ou não o que prega em seu livro, eu não posso assegurar. Mas, o que vejo quinzenalmente nas reuniões do Plano Diretor Participativo é suficiente para concluir que sua participação não é nada democrática.

Durante a reunião do Núcleo Gestor realizada em 3 de abril, ele superou-se. Os dois representantes suplentes do Pântano do Sul tentaram encaminhar à mesa coordenadora um abaixo-assinado de moradores do Distrito, protestando contra o modo como Schinke conduz as questões nos encontros locais. Segundo as denúncias, ele privilegia suas propostas antes mesmo de qualquer votação, bem como, deselegantemente, ridiculariza as propostas de seus pares, representantes das comunidades do Distrito. Bastante alterado, Gert Schinke chamou os envolvidos em protestos contra suas atitudes de “bêbados e drogados”, criando um clima nitidamente beligerante na plenária, a ponto de quase chegarem às vias de fato.

Quase não acreditei no que estava vendo! O que se passou ajudou a dividir os que ainda tinham alguma afinidade. Pareciam garotos seduzidos pela testosterona, ansiosos por um conflito de videogame, envolvidos em uma infantil e estúpida troca de ofensas. Posso discordar de Gert, mas nunca abdicaria da civilidade, muito menos em um fórum de política e cidadania como é o PDP, para perpetrar ofensas pessoais declarando-o “bêbado e drogado” por manifestar e defender, de forma enfática, opiniões diferentes das minhas. Pois, antes de qualquer outro efeito, atitudes levianas e irresponsáveis depõem contra quem assim age, que assina atestado de incapacidade para argumentar de maneira racional e democrática. Por mais antagônicos que sejam os pensamentos e ideais, em primeiro lugar vem o respeito mútuo.

Tais ocorrências quase policiais traem o sentido de democracia, constituindo uma afronta à população pacífica e ordeira da capital catarinense, que confiou nessas pessoas e aguarda ansiosa pelo seu novo Plano Diretor. Ao mesmo tempo em que afastam os bem intencionados e, por conseqüência, esvaziam o PDP da necessária participação plural.

É lamentável que sejam patrocinadas - entre outros - por quem se apresenta à comunidade com razoável currículo de atuação e experiência política, como vereador que foi em Porto Alegre, e que deveria dar exemplo nos debates.

É realmente lamentável. A cidade de Florianópolis merece muito mais que isto.

Ela merece respeito.

 

O autor é professor de Geografia
e pós-graduando em Geografia Humana