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Um novo mantra
começa a ganhar espaço na retórica ambientalista, nesses
tempos de Cúpula de Copenhague: o chamado “princípio da
precaução”. De início, este princípio parece inofensivo
e, até mesmo, muito saudável, afinal, dizem eles: “temos
o direito de ser protegidos contra potenciais ameaças a
nossa saúde ou ao meio ambiente em que vivemos”.
Por exemplo.
Em recente coluna no Jornal O Globo, a jornalista Mirian
Leitão, escreveu o seguinte:
“Os céticos
dizem que a temperatura sempre oscilou, portanto não é
ação humana, mas sim fenômeno natural. Todo esse esforço
da ONU e dos países não seria apenas inútil, seria um
erro. Imaginemos o cenário mais favorável aos céticos:
que se comprove manipulação de dados nos estudos do
instituto inglês (...). Se fosse aceita, a tese dos
céticos levaria o mundo a não fazer nada (...).
Se as decisões
do parágrafo acima fossem aceitáveis, ainda restaria o
argumento do seguro. Mesmo se fossem pequenas as
evidências científicas de que o clima na terra está
mudando, precisaríamos fazer um seguro contra esse
evento. Ninguém espera ter certeza do sinistro para
fazer o seguro, basta haver um risco”.
A lógica aqui
parece, em princípio, perfeita. Afinal, Bastiat já dizia
que são necessárias somente algumas poucas palavras para
estabelecer uma meia-verdade, mas precisamos de extensas
e áridas dissertações para demonstrar uma verdade
inteira.
Comecemos pelo
que a colunista não disse: que há um cálculo de custo x
benefício por trás de cada contrato de seguro. Se eu
faço um seguro de automóvel, por exemplo, é porque eu
compreendo o risco presente em dirigir um carro numa
grande cidade, como o Rio de Janeiro. Porém, o preço
desse seguro deve ser compatível com a probabilidade de
eventuais sinistros. O valor do prêmio que estamos
dispostos a pagar, portanto, é proporcional aos riscos
envolvidos. Até 5% do valor do veículo seria algo
razoável. Mais do que isso, eu já pensaria muitas vezes
antes de contratar.
A presença do
fator risco em cada ação ou escolha que fazemos não pode
– e não deve - significar paralisia. Assumir riscos
razoáveis, tanto em relação à nossa saúde quanto às
nossas propriedades, torna a vida incerta, mas também a
faz valer a pena.
Estatisticamente, sabemos que, para cada avião
produzido, a probabilidade de acidentes aumenta,
trazendo riscos aos usuários. Todavia, deixar de
construir aviões e aeroportos, como todos sabemos, não
seria uma decisão razoável, já que os benefícios gerados
superam em muito os eventuais malefícios. Da mesma
maneira, ao decidirmos pelo uso medicinal de
determinadas substâncias, estamos plenamente cientes de
que uma pequena fração de usuários poderá sofrer
problemas graves por conta de alergias e outros efeitos
colaterais das drogas. No entanto, em vista dos efeitos
benéficos dessas drogas para a maioria, normalmente não
hesitamos em ingeri-las.
Recentemente,
testemunhamos o impacto negativo desse tipo de
pensamento durante os debates sobre alimentos
geneticamente modificados. Os ambientalistas - oponentes
freqüentes do progresso tecnológico - sustentam que,
mesmo que não existam evidências sobre possíveis danos
desses alimentos à saúde, isso não quer dizer que eles
devam ser liberados. Segundo eles, nós (o outro lado)
teríamos que provar que esses alimentos são inofensivos,
antes de adotá-los. O problema aqui, e eles sabem bem
disso, é que não há como provar a ausência de um efeito,
assim como eu não posso provar que Papai-Noel não
existe. O máximo que podemos fazer é dizer que a
observação através dos séculos não evidencia a sua
presença entre nós. Karl Popper resumiu assim a coisa:
“Não importa quantos cisnes brancos você encontre
durante a vida. Isso nunca provará que não existem
cisnes negros”.
Como se pode
ver, a grande utilidade do princípio da precaução para a
causa ambientalista é justamente a de evitar o debate
científico. Sua lógica absurda dispensa do ônus da prova
àqueles que costumam apelar para reivindicações
estúpidas e injustificáveis.
Numa
ilustração pavorosa do triunfo da lógica “precaucionista”,
milhares de africanos podem ter morrido de fome, há
poucos anos, porque seus governos, influenciados pelo
discurso ambientalista e na tentativa de protegê-los
contra possíveis efeitos nocivos dos alimentos
geneticamente modificados, proibiram a distribuição de
toneladas de milho doadas pelos Estados Unidos - embora
milhões de seres humanos, mundo afora, o estejam
consumindo há vários anos, sem que tenham apresentado
qualquer sintoma que justifique os delírios dos
ecologistas.
Tudo na vida
envolve algum tipo de risco. Mesmo a mais comezinha das
atividades, como um passeio no parque, apresenta riscos
à vida ou à saúde. Se simplesmente nos deixássemos
paralisar por eles, provavelmente estaríamos ainda na
Idade da Pedra. Uma sociedade onde as pessoas não fazem
apostas, onde qualquer forma de progresso ou
desenvolvimento é abandonada em prol da busca de uma
segurança extremada, é uma sociedade fadada ao fracasso.
Se o princípio da precaução tivesse sido aplicado no
passado, Cristóvão Colombo jamais teria chegado à
América, Santos Dumont (Irmãos Wright?) nunca teria
inventado o avião e a NASA não teria colocado o homem na
lua, para ficarmos apenas em exemplos gritantes.
Na verdade,
saúde e bem-estar estão fortemente correlacionados com o
padrão de vida das diferentes sociedades. É inegável que
pessoas que vivem em países prósperos e tecnologicamente
avançados são menos propensas a ficar doentes e vivem
bem mais do que os viventes em países subdesenvolvidos.
A maior tragédia social da humanidade, portanto, não são
os alimentos geneticamente modificados, o colesterol, as
gorduras “trans” ou as mudanças climáticas, mas a
pobreza extrema. Esta mata muito mais gente do que
qualquer quimera ambientalista.
Ora, não
existem muitas dúvidas de que cortar em 80% as emissões
de CO2 levaria ao empobrecimento geral do mundo. O que a
maioria dos “céticos” sustenta é justamente que o custo
da precaução, no caso do aquecimento global, seria muito
maior que os benefícios.
Ademais, o
princípio da precaução carrega, em si mesmo, uma enorme
contradição. De acordo com o preceito, nós devemos
evitar qualquer ação que represente algum risco de dano
significativo. Ora, a proposta de corte radical das
emissões de CO2, como colocada na mesa, traz embutido um
enorme risco para a saúde e bem-estar da humanidade,
devido ao empobrecimento geral, conforme vimos acima.
Assim, analisada em termos do princípio da precaução,
esta proposta deveria ser, ela mesma, sumariamente
rejeitada.
O autor é administrador de empresa.
Transcrito de
www.midiaamais.com.br |