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Um belo e forte filme
brasileiro, Cidade de Deus, foi indicado em quatro
categorias (melhor diretor, melhor roteiro adaptado,
melhor fotografia e melhor edição) pela Academia de
Hollywood para receber sua premiação máxima – o OSCAR.
De acordo com a sinopse, o
principal personagem do filme Cidade de Deus não é uma
pessoa, mas um lugar. Embora se trate de um lugar real –
o filme é baseado no romance/pesquisa participante de
Paulo Lins em Cidade de Deus, Jacarepaguá, Rio de
Janeiro - o próprio autor do livro pôde testemunhar, em
visitas a cidades de norte a sul, que favelas e
periferias espalhadas pelo país se identificaram
fortemente com a narrativa do filme. Para quem assiste
de fora – o narrador do filme, Buscapé, é também seu
repórter fotográfico – aquele lugar violento parece ser
mais uma favela habitada por gente pobre e controlada
pelo tráfico de drogas. Neste sentido, o filme faz coro
com as denúncias repetidas diária e incessantemente
pelos noticiários, que de tantas vezes repetidas passam
a constituir uma espécie de pano de fundo do cotidiano,
embaçado, desfocado, distante.
Entretanto, através das
lentes do cinema, o filme perturba o espectador,
contando a história deste lugar. Esta história começa
nos anos 60, governo Lacerda, quando o conjunto
habitacional Cidade de Deus começa a ser construído,
para abrigar moradores removidos de favelas do Rio de
Janeiro. Para as inicialmente casas térreas foram
deslocados moradores de favelas, como a da Catacumba, na
Lagoa Rodrigo de Freitas,com o objetivo de extirpar o
que era considerado desde o início do século XX como uma
espécie de “chaga urbana.”
A dualidade cidade/favela
começa aí: em 1900 a favela estava para a cidade assim
como o sertão de Canudos estava para o litoral: bárbaro,
ameaçador, agreste e miserável. Mas é só a partir dos
anos 40, que a política para a favela entra na prática e
no discurso das políticas públicas do país. Removê-las e
em seu lugar construir a alternativa da casa própria
produzida pelo Estado passou a ser a palavra de ordem da
política habitacional.
A construção de Cidade de
Deus obedeceu a esta lógica: o lugar escolhido –
Jacarepaguá – era bairro rural distante e pouco habitado
e portanto com terras fartas e baratas. A solução
habitacional proposta naquela ocasião – a reprodução em
série de casinhas longe da cidade, dos mercados de
trabalho, do comércio, dos serviços, da vida urbana, da
urbanidade enfim, atravessou quase incólume décadas de
política habitacional para encontrar, em pleno ano 2000,
a reprodução do mesmo modelo, quarenta anos depois. Para
servir como cenário onde se desenrola a primeira fase do
filme – o início da ocupação nos anos 60 – o diretor e
co-diretora Fernando Meirelles e Kátia Lund escolheram o
conjunto Nova Sepetiba, empreendimento novamente
construído como política pública habitacional em um ermo
vazio, para onde seriam deslocadas, ao final de todas as
fases de implantação, dez mil famílias.
A segunda fase do filme –
os apês – marca a entrada em cena do BNH, no final dos
anos 60 e intensamente nos anos 70, que procurou
aumentar a densidade e produtividade dos conjuntos,
produzindo em série apartamentos populares. Assim,
Cidade de Deus se aproxima de Cidade Tiradentes e demais
COHABs do país, introduzindo a verticalização dos
conjuntos sem entretanto romper a lógica básica da
segregração e exílio dos assentamentos populares. Em
seguida, o praticamente inevitável destino do final dos
anos 80/ 90 – a favelização ou Refavela, como cantou
nosso agora Ministro da Cultura Gilberto Gil, e a
apropriação do lugar pelo tráfico de drogas. Pobres
entre pobres, gueto separado da cidade, longe de suas
oportunidades, sua riqueza, suas qualidades.
Aqui apontamos para a
triste ironia subreptícia do filme: espectadores, Cidade
de Deus não é favela, é conjunto habitacional produzido
pelo governo do Estado da então Guanabara, idêntico a
milhares de outros produzidos por companhias e agências
governamentais Brasil afora, e que, ao longo dos anos,
sofreu processos de adensamento e favelização.
A pergunta que fica – além
da óbvia (será que o filme ganhará o Oscar?) é: devemos
continuar reproduzindo Cidades de Deus? Como construir
uma política urbana e habitacional em nosso país que
garanta para todos, independente de sua condição
econômica, o direito à cidade?
As refavelas como Cidade de
Deus já provaram que o modelo praticado exaustivamente
ao longo dos últimos 40 anos não deu certo; sob a
vertigem da violência extrema retratada cruamente no
filme, se ouve o grito do lugar: Cidade de Deus - nunca
mais!
Este - além evidentemente
do montante de recursos que o país precisará dispor nos
próximos anos em todos os níveis de governo para
enfrentar esta questão – é um dos maiores desafios a
serem enfrentados pelo Ministério das Cidades e a
política urbana e habitacional proposta pelo governo
federal. A questão não se resume apenas ao número de
casas a serem produzidas, mas à inclusão, na agenda do
planejamento urbano, do lugar destinado aos mais pobres
na cidade. Neste sentido, programas como urbanização e
regularização fundiária e de reabilitação de áreas
centrais e consolidadas que sofreram processos de
despovoamento e esvaziamento estão entre as alternativas
propostas. Entretanto, este não é um desafio apenas do
governo federal, mas dos governos locais e da sociedade:
a cidade brasileira tem que encontrar uma forma de ser
para todos. |