Passando um sabãozinho nas mãos

Afif Simões Neto

 

Eu estava escutando o rádio quando uma mãe chorosa entrou no ar para sentenciar: o grande culpado de seu filho caçula ter sido internado na Fase, antiga Febem, era o Conselho Tutelar, que muito pouco teria feito para evitar que o pior acontecesse. E não se diga que foi por falta de aviso aos conselheiros, segundo falou ao repórter. Alguém precisa dizer a essa desavisada senhora que ela e o papai do pré-marginal são os únicos responsáveis pela desdita. Essa gente tem que parar de trasladar responsabilidades, de achar que as pessoas e as instituições têm o encargo legal de educar os filhos alheios. Já que botaram as crias no mundo, e a tanto sequer obrigados estavam, que tratem de cuidá-las como manda o figurino, porque o dever é só deles e de mais ninguém. Ou você acha que a lei me impõe aturar a má criação de filhos que nem meus são?

Engraçado: na hora do balacobaco, nem se lembram de que existe delegacia, Fórum ou promotoria. Depois, quando a rosca aperta, a primeira coisa que fazem, com a maior cara-de-pau, é entregar de bandeja o filho amado para o juiz recuperar a obra, passando um sabãozinho nas mãos, antes de sair de casa, rumo ao ofertório.

Ninguém é culpado de os filhos dos outros não terem dado certo. Se os pais tivessem dito algum “não” quando disseram caçambadas de “sim”; se eles não tivessem largado de mão, justo no momento em que o filho mais precisava de ajuda; se eles não tivessem transferido para os avós, para o colégio e até para o vizinho Zé Escambau a tarefa da educação, não estariam, agora, indo para a Capital visitar o guri que dorme numa cadeia, disfarçada de internato.

A polícia, o Ministério Público, o Judiciário não foram concebidos para substituir os pais na criação da descendência. Se cada um fizesse a sua parte, este mundo não estaria virado na zona em que se meteu, com as pessoas saindo e entrando pela mesma folha da porta. Como disse a psicóloga Marlise Flório Real, num de seus lúcidos artigos publicados em jornal de Pelotas (RS), “ser pai e ser mãe implica inquietações e compromissos. Abraços e beijos, mas também caras emburradas. Alegrias do sim, mas também choros por causa do não”.

Quem deseja obter carteira de habilitação, por exemplo, precisa fazer um curso com atividades semanais, até tantas horas. Pois para casar, ou atitude similar, também deveria ser exigido, para concessão da outorga estatal, freqüentar uma espécie de pré-vestibular conjugal, onde seria ensinado o que significa o verbo gerar e a sua imensa conseqüência, principalmente quando a questão disser respeito à imposição de limites. Se mesmo assim a lição falhar, restaria, ainda, um último remédio: aprender com as vacas a ser uma mãe firme e carinhosa ao mesmo tempo.

 

 

O autor é Juiz de DIreito