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Eu estava
escutando o rádio quando uma mãe chorosa entrou no ar
para sentenciar: o grande culpado de seu filho caçula
ter sido internado na Fase, antiga Febem, era o Conselho
Tutelar, que muito pouco teria feito para evitar que o
pior acontecesse. E não se diga que foi por falta de
aviso aos conselheiros, segundo falou ao repórter.
Alguém precisa dizer a essa desavisada senhora que ela e
o papai do pré-marginal são os únicos responsáveis pela
desdita. Essa gente tem que parar de trasladar
responsabilidades, de achar que as pessoas e as
instituições têm o encargo legal de educar os filhos
alheios. Já que botaram as crias no mundo, e a tanto
sequer obrigados estavam, que tratem de cuidá-las como
manda o figurino, porque o dever é só deles e de mais
ninguém. Ou você acha que a lei me impõe aturar a má
criação de filhos que nem meus são?
Engraçado:
na hora do balacobaco, nem se lembram de que existe
delegacia, Fórum ou promotoria. Depois, quando a rosca
aperta, a primeira coisa que fazem, com a maior
cara-de-pau, é entregar de bandeja o filho amado para o
juiz recuperar a obra, passando um sabãozinho nas mãos,
antes de sair de casa, rumo ao ofertório.
Ninguém é
culpado de os filhos dos outros não terem dado certo. Se
os pais tivessem dito algum “não” quando disseram
caçambadas de “sim”; se eles não tivessem largado de
mão, justo no momento em que o filho mais precisava de
ajuda; se eles não tivessem transferido para os avós,
para o colégio e até para o vizinho Zé Escambau a tarefa
da educação, não estariam, agora, indo para a Capital
visitar o guri que dorme numa cadeia, disfarçada de
internato.
A polícia,
o Ministério Público, o Judiciário não foram concebidos
para substituir os pais na criação da descendência. Se
cada um fizesse a sua parte, este mundo não estaria
virado na zona em que se meteu, com as pessoas saindo e
entrando pela mesma folha da porta. Como disse a
psicóloga Marlise Flório Real, num de seus lúcidos
artigos publicados em jornal de Pelotas (RS), “ser pai e
ser mãe implica inquietações e compromissos. Abraços e
beijos, mas também caras emburradas. Alegrias do sim,
mas também choros por causa do não”.
Quem deseja
obter carteira de habilitação, por exemplo, precisa
fazer um curso com atividades semanais, até tantas
horas. Pois para casar, ou atitude similar, também
deveria ser exigido, para concessão da outorga estatal,
freqüentar uma espécie de pré-vestibular conjugal, onde
seria ensinado o que significa o verbo gerar e a sua
imensa conseqüência, principalmente quando a questão
disser respeito à imposição de limites. Se mesmo assim a
lição falhar, restaria, ainda, um último remédio:
aprender com as vacas a ser uma mãe firme e carinhosa ao
mesmo tempo. |