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Os liberais e conservadores deste país nunca hão de
tirar o pé da lama enquanto continuarem acreditando que
nada mais os separa dos esquerdistas senão uma
divergência de idéias, apta a ser objeto de polidas
discussões entre pessoas igualmente honestas, igualmente
respeitáveis. A diferença específica do movimento
revolucionário mundial é que ele infunde em seus
adeptos, servidores e mesmo simpatizantes uma substância
moral e psicológica radicalmente diversa daquela que
circula nos corações e mentes da humanidade normal. O
revolucionário sente-se membro de uma supra-humanidade
ungida, portadora de direitos especiais negados ao homem
comum e até mesmo inacessíveis à sua imaginação. Quando
você discute com um esquerdista, ele se apóia amplamente
nesses direitos, que você ignora por completo. A regra
comum do debate, que você segue à risca esperando que
ele faça o mesmo, é para ele apenas uma cláusula parcial
num código mais vasto e complexo, que confere a ele
meios de ação incomparavelmente mais flexíveis que os do
adversário. Para você, uma prova de incoerência é um
golpe mortal desferido a um argumento. Para ele, a
incoerência pode ser um instrumento precioso para
induzir o adversário à perplexidade e subjugá-lo
psicologicamente. Para você, a contradição entre atos e
palavras é uma prova de desonestidade. Para ele, é uma
questão de método. A própria visão do confronto polêmico
como uma disputa de idéias é algo que só vale para você.
Para o revolucionário, as idéias são partes integrantes
do processo dialético da luta pelo poder; elas nada
valem por si; podem ser trocadas como meias ou cuécas.
Todo revolucionário está disposto a defender “x” ou o
contrário de “x” conforme as conveniências táticas do
momento. Se você o vence na disputa de “idéias”, ele
tratará de integrar a idéia vencedora num jogo
estratégico que a faça funcionar, na prática, em sentido
contrário ao do seu enunciado verbal. Você ganha, mas
não leva. A disputa com o revolucionário é sempre regida
por dois códigos simultâneos, dos quais você só conhece
um. Quando você menos espera, ele apela ao código
secreto e lhe dá uma rasteira.
Você pode se escandalizar de que um desertor das tropas
nacionais seja promovido a general post mortem enquanto
no regime que ele desejava implantar no país o
fuzilamento sumário é o destino não só dos desertores,
mas de meros civis que tentem abandonar o território.
Você acha que denunciando essa monstruosa contradição
acertou um golpe mortal nas convicções do
revolucionário. Mas, por dentro, ele sabe que a
contradição, quanto menos explicada e mais escandalosa,
mais serve para habituar o público à crença implícita de
que os revolucionários não podem ser julgados pela moral
comum. A derrota no campo dos argumentos lógicos é uma
vitória psicológica incomparavelmente mais valiosa.
Serve para colocar a causa revolucionária acima do
alcance da lógica.
Você não pode derrotar o revolucionário mediante simples
“argumentos”. A eles é preciso acrescentar o
desmascaramento psicológico integral de uma tática que
não visa a vencer debates, mas a usar como um
instrumento de poder até mesmo a própria inferioridade
de argumentos. Em cada situação de debate é preciso
transcender a esfera do confronto lógico e pôr à mostra
o esquema de ação em que o revolucionário insere a troca
de argumentos e qual o proveito psicológico e político
que pretende tirar dela para muito além do seu resultado
aparente.
Mas isso quer dizer que o único debate eficiente com
esquerdistas é aquele que não consente em ficar preso
nas regras formais num confronto de argumentos, mas se
aprofunda num desmascaramento psicológico completo e
impiedoso. Provar que um esquerdista está errado não
significa nada. Você tem é de mostrar como ele é mau,
perverso, falso, deliberado e maquiavélico por trás de
suas aparências de debatedor sincero, polido e
civilizado. Faça isso e você fará essa gente chorar de
desespero, porque no fundo ela se conhece e sabe que não
presta. Não lhe dê o consolo de uma camuflagem
civilizada tecida com a pele do adversário ingênuo. |