Quem explora o cidadão?

Alberto Oliva

 

A revolução benigna da qual o país tanto precisa terá de começar pela desestatização da mentalidade. Não faz sentido ficar culpando o mercado pelos males do mundo mostrando conivência com a extorsão tributária imposta pelo Estado. Afinal, quem se apropria da parte do leão de tudo que é produzido neste país? Quando se compara o que a iniciativa privada faz com os serviços públicos deteriorados, não há como evitar a pergunta: o que leva as elites pensantes a atacarem com virulência a economia de mercado fazendo vista grossa para a mancomunação entre voracidade tributária e paquidermia estatal? Jamais houve uma campanha do movimento estudantil contra o Leviatã e a neoderrama. Impressiona o fato de que se fala tanto em exploração do trabalho, ocultando-se a informação elementar de que o cidadão paga impostos extorsivos para ficar ao relento dos direitos básicos. Na Terra Brasilis, a ideologia dominante ensina que o Estado é Deus - pode tomar tudo mesmo sem dar nada - e que os que o controlam só pensam no ''bem comum''.

Em quase todas as vias públicas importantes das médias e grandes cidades o motorista é achacado por flanelinhas que fazem ameaça velada quando pedem para ''tomar conta do carro''. Quando o ''serviço'' é normatizado pela prefeitura, se paga em torno de dois reais para deixar o carro por um período definido de tempo. Que sentido faz pagar para deixar o carro na rua sem proteção, à mercê de danos e mossas? O curioso é que quem faz seguro total do carro - contra furto, roubo, incêndio e acidentes, etc. - não se dá conta de que despende uma ninharia em comparação com o que paga ao estado (o famigerado IPVA) e com o que se vê obrigado a dar a flanelinhas e guardadores. O seguro total de um carro médio, em cidades infestadas de ladrões, fica em média 5% do valor do veículo. Isto costuma ser equivalente a um dispêndio diário na faixa de 3 reais por dia. Uma verdadeira bagatela se comparados aos dois reais pagos para estacionar sem qualquer tipo de proteção. É a falta de percepção deste tipo de distorção que leva as pessoas a dirigirem a revolta para o alvo errado: a economia de mercado. As empresas no Brasil costumam ser mal vistas; algumas até merecem a má fama. Mas a grande maioria vende produtos e presta serviços bons e baratos.

Não há como deixar de causar revolta o fato de o valor do IPVA ficar muito próximo do que é cobrado por um seguro de automóvel. Caso se junte o que é pago todo dia ao flanelinha com o despendido com IPVA, o montante ultrapassará o que é pago à seguradora para que o carro tenha cobertura total. Quem é o vilão? A iniciativa privada ou o Estado? Quem achaca o cidadão não é a seguradora e sim os que se assenhoreiam do espaço público e o estado que cobra um IPVA desproporcional. Se os que pouco ou nada têm a oferecer cobram muito mais do que os que muito nos proporcionam, é grave a distorção.

O brasileiro pensa que a maior parte de seu dinheiro enche o bolso de empresários desalmados. Com isso, erra de vilão. O caso dos flanelinhas e dos impostos é apenas um exemplo que mostra que neste país, por ter o Estado se formado antes da sociedade, por terem os grupos de pilhagem se articulado antes que se formasse uma consciência cidadã individual, poucos conseguem enxergar o óbvio: que o grosso das riquezas produzidas não vai para quem trabalha ou empreende e sim para a burocracia parasitária. É fácil constatar que quem cobra sem esbulhar é a iniciativa privada. Mesmo porque, para ter um lugar ao sol, as empresas que disputam fatias de um mercado marcado pela acirrada competição precisam fazer das tripas coração.

E o que faz o Estado quando gasta desbragadamente e com pouca racionalidade? Aumenta impostos e faz subir a taxa de juros para não ter de cortar despesas.

 

O autor é filósofo, escritor
e professor da UFRJ www.parlata.com.br