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No dia 26
de abril o funcionário Leandro Pacífico de Souza ateou
fogo no Supermercado Rosa, onde trabalhava, e
suicidou-se com um tiro na cabeça em meio às chamas. O
corpo de um outro funcionário do mercado, que ajudava a
salvar colegas, foi encontrado durante o rescaldo. Além
dos dois mortos, 35 pessoas ficaram feridas, algumas
gravemente.
Leandro
trabalhava há seis meses no Rosa e já havia sido
promovido de auxiliar de caixa a repositor. A empresa
espera que a sua loja de Ingleses volte a funcionar 60
dias após a emissão do laudo técnico e obtenção do aval
de reconstrução a ser emitido. Mesmo saindo ilesos da
tragédia, muitos funcionários estão traumatizados,
sofrem de insônia, precisam de acompanhamento
especializado e medicação. Nas circunstâncias, não é um
grande alento o fato da empresa garantir que não
ocorrerão demissões: há gente pensando em não voltar
mais.
A imprensa
divulgou a manifestação de parentes de Leandro. Uma
disse que ele era um bom rapaz e que “a empresa deve ter
cometido uma grande injustiça para ele ter feito o que
fez”. Outro comentou que Leandro estava decepcionado com
o aumento de salário da promoção de cargo. Já uma colega
contou que o rapaz “andava meio estranho, tratando mal
os clientes e sendo ignorante com colegas”. “Ele ia ser
demitido e estava consciente disso”, disse ela.
Entre o as
informações que circularam sobre a tragédia em Ingleses,
um jornal noticiou algo tão surpreendente quanto grave:
que em Floripa há uma "onda de revolta de trabalhadores
com seus patrões e empregos”, o que “deve servir de
alerta para todos no que se refere ao cumprimento de
cláusulas trabalhistas”. O órgão de informação observou
que “o estresse da demissão em tempos de índices altos
de desemprego é muito grande”.
Deixe-me
ver se entendi: o funcionário incendeia o
estabelecimento onde trabalha e, portanto, os
empresários devem (!) tomar ainda mais cuidado ao
demitir? Ora essa! Não seria o contrário? Mais cuidado
ao admitir, senhores patrões, pois, se qualquer
sensibilidade ou estresse puder justificar um surto
piromaníaco a sociedade em peso está frita e a economia
ferrada. E a culpa é de quem gera empregos!
A demissão
de empregados, afinal de contas, já está suficientemente
regulamentada na quilométrica (e ultrapassada)
legislação que engessa as relações de trabalho no país e
que é, sem dúvida, destaque entre os fatores do
desemprego no Brasil. Mas o saco sem fundo da retórica
assistencial-paternalista surge com a novidade de uma
psicologia de bolsa, bastante conveniente para a falta
de raciocínio. Por isso, o “ministério do trabalho”
adverte aos patrões malvados: empregado sensível “é fogo
na empresa”!
Se a
cobertura jornalística do caso tivesse algum senso de
justiça iria perguntar-se: Que motivo plausível teria
uma empresa em expansão (o Supermercado, recentemente,
ampliou suas instalações), com cerca de 150 outros
empregados, para cometer tanta “injustiça” em tão curto
prazo da relação de trabalho com um funcionário
subalterno que chegou a promover de cargo, a ponto de
levá-lo a tal gesto tresloucado, tão irresponsavelmente
trágico?
Vale
lembrar que, se o emprego está difícil - e está! - nesta
Capital que não passa de uma cidade média, há a Região
Metropolitana e as diversas regiões muito mais prósperas
e produtivas em Santa Catarina, como o Vale do Itajaí no
norte do estado ou Criciúma no sul, ou ainda o oeste que
é pautado no agronegócio (maior exportadora de carnes
brancas do mundo). E, claro, antes de entrar em surto,
ainda resta ao empregado descontente a alternativa de
migrar para outros estados, onde só não trabalha quem
não quer. Aliás, entre os manezinhos da Ilha dantanho -
muitos deles ainda vivos para ensinar aos mais jovens
como se faz - com todas as imensas dificuldades da
época, era muito comum a rapaziada ir para o Rio Grande
do Sul e São Paulo, em busca de trabalho e carreira
profissional.
Antes que
digam que isto não procede, devo avisar que vivi 17 anos
em São Paulo e nunca me faltou emprego, mas agora,
vivendo há cerca de dois anos aqui em Florianópolis, uma
escola em que trabalhava ano passado, faliu devido ao
mau uso de seu capital de giro e outro curso
pré-vestibular, não conseguindo matrículas suficientes
fechou suas portas. Que farei? Vou queimar tudo? Ou quem
sabe partir para outra, sem responsabilizar os demais
colegas de trabalho devido às incertezas do infortúnio?
O que fazem
alguns jornalistas é um jogo maniqueísta ao conduzir a
opinião pública, abdicando de seu simples, mas honesto,
dever de informar. Aproveitando-se das brasas e das
lágrimas no Rosa de Ingleses para dar uma chamuscadinha
de leve e mandar recado aos seus próprios patrões:
“Tenho uma caixa de fósforos no bolso, portanto te
cuida!”
Para o
processo de “vitimização” da sociedade é conveniente que
as atitudes insanas de um único trabalhor frente às
agruras da vida, “esquecendo” que ninguém deve
prejudicar o semelhante, sejam tomadas como referência
para todos os outros. Para mim, é um raciocínio torpe
que implica em uma mentira: a de que a culpa é sempre do
outro, e que qualquer nuance de “exclusão social” pode
legitimar atos contra a lei.
Bem, eu
pensava que no 1º de Maio se comemorasse o Dia do
Trabalho, mas parece que alguns jornalistas ainda
escrevem pensando no 1º de Abril... |