Até a próxima reunião, Consegs...

Maria Aparecida Nery

 

Na primeira reunião da nova gestão do Conseg Ingleses/Santinho, um assunto recorrente dominou a pauta: a transferência da favela do Siri para um conjunto habitacional a ser construído em área cedida pela Casan no Sítio do Capivari, na baixada do Morro do Maurício, entrada de Ingleses. A declaração do governador Luiz Henrique da Silveira, durante um evento, em 15 de maio, alarmou moradores do Norte da Ilha: segundo LHS o Ministério das Cidades já disponibilizou a verba de R$8,5 milhões para a implantação do projeto da Secretaria de Municipal de Habitação e Saneamento Ambiental, ao custo de R$39 mil por família.

O convidado do Conseg, secretário Átila Rocha dos Santos, não compareceu devido a outros compromissos. Mas seu adjunto, o sempre solícito Salomão Mattos Sobrinho, levou dois técnicos para exibir um áudio-visual sobre o projeto e debater com a comunidade.

A principal reclamação dos moradores é sobre a “discrição” com que o projeto vem sendo encaminhado pela Prefeitura em relação à população em geral e, em especial, a uma parcela das lideranças comunitárias. Ficou muito claro pelas manifestações que, para os moradores, os órgãos públicos agem como crianças levadas que se escondem dentro do guarda-roupa para brincar com fósforo.

Um nativo, morador há 30 anos nas imediações do local proposto, questionou a viabilidade ambiental do projeto, garantindo que os prédios de apartamentos ficariam sobre áreas de alagadiço da nascente do rio Capivaras. Paulo Spinelli, representante de Ingleses no Núcleo Distrital do PDP, brandiu o canudo com os mapas fornecidos pelo Ipuf, para concordar com as limitações de uso da área.

Linha Vermelha

Outros moradores manifestaram-se sobre questões práticas. Alguém alertou para o fato de que o projeto não prevê local para estacionamento dos carrinhos e carroças dos catadores. Outros foram mais fundo, denunciando que transferir os ocupantes das dunas para o Morro do Maurício vai montar uma bomba de efeito retardado contra os moradores de Ingleses: a Vila União, de um lado da SC-403, na Vargem do Bom Jesus, e a favela do Siri, de outro lado, no Sítio do Capivari, cria uma “Linha Vermelha” em Florianópolis, a exemplo do que acontece no Rio de Janeiro: quando as facções que se organizam dentro dessas comunidades carentes partirem para confrontos entre si, a rodovia será fechada, sitiando Ingleses e criando um verdadeiro inferno para a sociedade local.

Também foi lembrado que conjunto habitacional, como solução para favelas, “modelo praticado exaustivamente ao longo dos últimos 40 anos”, comprovadamente não dá certo. Ele já foi criticado até pela própria Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades, Raquel Rolnik, em artigo divulgado pela Folha de S. Paulo, ainda em 2004 ( “Cidade de Deus - nunca mais!” ) . Segundo Rolnik, os conjuntos habitacionais resultam em “refavelas”, pois não rompem a “lógica básica da segregação e exílio dos assentamentos populares”, e acabam na “apropriação do lugar pelo tráfico de drogas”. Ela ilustra com o caso da Cidade de Deus (RJ), que ficou mundialmente conhecido, mas em Floripa mesmo há vários exemplos disso.

Foi questionada, também, a idéia corrente de que ocupantes irregulares de baixa renda em áreas públicas formam grupos inseparáveis, uma espécie de vizinhos siameses, portadores de intocável identidade coletiva, cujo único destino possível seja viver em tabas, como se não sobrevivessem longe uns dos outros. Ou como seres incapazes de conviver dentro de outros grupos sociais.

Entende-se. Em coletivo, têm a seu favor a égide do populismo demagógico ao qual são atraídos por ideólogos e poliqueiros de plantão com seus credos sobre direitos humanos , fundamentais ao exercício da democracia direta, da legitimação do ilegal: se necessitamos, podemos. No singular, na instância do indivíduo dono de seu próprio destino, a sobrevivência não é menos difícil. E, ainda por cima, é muito mais complexa.

Mas, digam o que disserem as teorias sociológicas do século XIX, tão em moda hoje em dia, pobres também são pessoas plenas, com capacidade para fazer suas próprias escolhas e, é óbvio, encarar as conseqüências delas decorrentes. É assim com a maioria silenciosa da população que, aliás, paga muito imposto e pouco ou nada recebe em troca.

Para muitos dos que moram sobre as dunas, o sonho da casa própria nem nasceu em Floripa, mas sim nas suas cidades de origem. Consta que eles vieram para cá em busca de outro sonho: o sonho de trabalho, que também não se acha e nem se mantém fácil por essas bandas. Por isso o questionamento de tantos: casa própria para migrantes soluciona qual problema em uma cidade onde não conseguem trabalho para manter a tal vida digna? Anualmente, milhares continuam vindo para a Ilha da Magia “em busca de trabalho”. Trabalho que não encontram, mas insistem em ficar. Se vamos justificar as coisas pelo direito a realizar sonhos, o sonho do trabalho vem antes de todos os outros. E talvez seja preciso coragem para buscá-lo onde realmente existir. Somente onde houver trabalho digno será encontrada a moradia idem.

Sonhos

O direito, que é legítimo, de realizar sonhos, não existe como um direito natural, legal, que o Estado deva realizar. No entanto, ele vem sendo imposto por uns sobre outros. Inclusive por minorias sobre maiorias. O sonho da casa própria não pode, portanto, sobrepor-se à ilegalidade da ocupação da duna, que é Área de Preservação Permanente, da qual depende o próprio futuro do planeta, segundo ecoam as rezas ambientalistas. Assim como a libertação da duna não pode ser admitida no contrato político como o preço em moeda verde de um, vá lá, resgate social coletivo. Além disso, é pura ilusão imaginar que o poder público possa - ou que tenha esta função de - dar conta de realizar sonhos do povo. E, se puser-se a tentar isso, muito menos vai dar conta do que é apenas o básico para cada homem: trabalho, educação, saúde e segurança. Não existe almoço grátis. Nem casa própria. Materialmente, o grátis não existe: alguém sempre paga pelo grátis de alguém. Em época de grandes dificuldades para todos, ninguém anda muito disposto a isso.

Os órgãos ligados ao assistencialismo social podem e devem atuar em assessoramento individual e apoio psicossocial a essas famílias, oferecendo orientações sobre organização financeira pessoal, reforçando a sua auto-estima como indivíduos, para desatar os nós coletivistas e reacender a chama sobre valores individuais esquecidos, sobre a importância e o prazer de ser dono do próprio nariz, arcando, é claro, com as conseqüencias do que faz. Ou deixa de fazer.

Nessa linha, uma das sugestões durante a reunião do Conseg foi a de que o repasse desses milhões seja feito na forma de empréstimos individuais de R$39 mil por família, em condições de pagamento para baixíssima renda, exclusivamente para investimento na aquisição do primeiro imóvel. E cada núcleo familiar que vá à luta nas maravilhas geográficas desta cidade em busca do que couber no valor do empréstimo. Como fazem os cidadãos comuns que não ocupam áreas públicas.

Além de movimentar a economia de Florianópolis de forma não pontualmente localizada, desse jeito talvez se pudesse esperar que o total dos tais R$8,5 milhões realmente consigam realizar os sonhos aos quais se destinam, ao invés de ter boa parte desviada para a realidade dos bolsos dos donos das torneiras de destinação de verba. Especialmente numa administração pública que sofre de síndrome da empreiteira de obras.

Moradores também denunciaram como as ocupações tornaram-se um verdadeiro método na cidade, por causa da postura das autoridades de tolerância e omissão em seu início, seguindo-se a aceitação como “problema social” e outros lirismos do “direito alternativo”, culminando no assistencialismo estatal como única solução. É método. Sem dúvida.

Não é por outra razão que, enquanto cidadãos comuns e respeitadores das leis do Norte da Ilha dedicam-se a fiscalizar as ações do poder público sobre o problema da ocupação das dunas, o Morro do Mosquito (Vargem do Bom Jesus), o Mangue de Ratones, o rio Papaquara, entre outros tantos locais, continuam sendo ocupados impunemente.

Até a próxima reunião, Consegs...