Os nomes são oficiais
mas as servidões não são, não!

Maria Aparecida Nery

 

Em sua edição de 27 de junho, o jornal Notícias do Dia (pág. 8) publicou uma matéria sobre o Rio Vermelho, eivada de desinformações que merecem reparos.

O jornal ouviu uma consultora ambiental, identificada como “um dos membros do Núcleo Gestor do Distrito” que, garante o repórter, está estudando “com afinco e cuidado” todos os problemas da região. E alguém citado genericamente como um “líder comunitário” que “todo o dia vê casas sendo construídas no Rio Vermelho”, razão pela qual conclui que “isso demonstra o crescimento constante”. Ah!

Precisam estudar muito mais e com muito mais afinco e cuidado, que é para não sair por aí dizendo bobagens. Tanto as fontes quanto o repórter, que as reproduziu como se fossem verdades.

Ao trabalho: A Rodovia Baldicero Filomeno fica no Ribeirão da Ilha. No Rio Vermelho a Rodovia é a João Gualberto Soares.

Núcleo Gestor é a matriz das atividades do Plano Diretor Participativo de Florianópolis. O NG funciona no Ipuf e é coordenado pelo seu presidente, Ildo Rosa. O que existe aqui no Rio Vermelho é um Núcleo Distrital.

A tal consultora ambiental criticou “a aprovação das ruas sem parecer técnico do IPUF (Instituto de Planejamento Urbano)” e completou com a seguinte frase em tom de decreto: “Hoje em dia todas as servidões são oficiais, não importando as condições.” Tudo errado.

As servidões NÃO são aprovadas SEM parecer técnico do Ipuf. Elas são loteadas e vendidas clandestinamente, os lotes são comprados e ocupados irregularmente pelas pessoas que vão morar nelas, que depois reúnem-se em abaixo-assinados entregues a vereadores, que os transformam em projetos de lei - e, é claro, em muitos votos - para dar a essas ruas os nomes indicados pelo próprios moradores (ou não - mas isso é assunto para outra ocasião).

Os projetos de denominação das ruas são aprovados pela Câmara apesar de todos os pareceres contrários: inclusive o do Ipuf, o do Prefeito, das procuradorias - até a da própria Câmara, notadamente quando se encontram em áreas de proteção ambiental -, e do Ministério Público!
 

Uma colcha de retalhos

Essas leis, é bom que se ressalte e eu repito, tem o único poder de denominar as servidões, mas não de oficializá-las ou legalizá-las. Elas continuam não existindo no Plano Diretor do Município. (Isso vale para toda a cidade e eu prometo voltar a este assunto em próxima edição, com exemplos em toda a Ilha, abordando especificamente este ponto da questão: o dos pareceres técnicos e jurídicos.)

Ainda segundo a consultora ambiental, o problema das ruas “das mais variadas larguras, localizações, com ou sem saída, que fazem do lugar uma colcha de retalhos”, “é decorrente da mudança de zoneamento feita entre 1993 e 1995, de área rural mista para residencial exclusiva”. Não é bem assim.

Década e meia atrás, como área rural, os lotes mínimos permitidos no Rio Vermelho eram de 2 mil metros quadrados. Mas já naquela época, como hoje, comprava-se terra a granel, em qualquer medida que se pudesse pagar. Na mudança de zoneamento para área residencial os lotes passaram a ter tamanho mínimo de 450 metros quadrados. Mas nada mudou em relação à compra a granel de terras e aos loteamentos clandestinos.

Atribuir os problemas de arruamento no Rio Vermelho - que são idênticos em toda a cidade - à mudança de zoneamento de área rural para residencial é uma inversão simplista dos fatos: a mudança de zoneamento ocorreu exatamente numa vã tentativa do Poder Público de impor preventivamente alguma ordem ao caos que já se desenhava no horizonte desta localidade interiorana da Ilha, pelo parcelamento informal de grandes glebas rurais, pelo comércio clandestino dos lotes e pelas edificações irregulares, que continuam, até hoje: abrindo “as ruas das mais variadas larguras, localizações, com ou sem saída, que fazem do lugar” a colcha de retalhos que a consultora ambiental denuncia.
 

“Eles”...

A alteração de zoneamento, de área rural para residencial foi uma clara adaptação do Plano Diretor à “situação consolidada” que já se espalhava pelo Distrito como rastilho de pólvora. Todo brasileiro sabe como isso funciona: o povo não precisa obedecer as leis porque, mais dia, menos dia, as leis acabam obedecendo ao povo...

Não sejamos anjos. O falacioso e tão decantado Plano Diretor Participativo, de cujo Núcleo Distrital do Rio vermelho a consultora ambiental é membro, também não vem para resolver os grandes problemas da cidade e prepará-la para um futuro bem diferente daquilo em que ela está visivelmente se tornando. Na verdade, o PDP está “aparelhado” - e só não vê isso quem não quer - com um único objetivo muito claro - que também só não vê quem não quer: a regularização fundiária pela transformação das ocupações irregulares, inclusive - ou principalmente - as que estão sobre áreas de preservação, em ZEIS - Zonas Especiais de Interesse Social.

É a consagração do clandestino pela estatização do caos urbano: com a regularização fundiária como ZEIS, em nome do social a cidade degradada desiste de recuperar suas áreas de preservação ocupadas irregularmente (em boa quantidade de casos pelos mesmos ambientalistas xiitas que esgrimam de foice e martelo embargos a grandes obras na Ilha). E a obrigação de urbanizar e estruturar essas áreas para usufruto de quem transgrediu a lei cai no colinho do papai estado.

Não é mesmo uma solução perfeita? Pois é. E o problema são os outros.

Os nossos pajés e morubixabas - através de seus escrevinhadores de plantão -, atribuem a culpa pelos problemas a “eles”. Uns “eles” indefinidos, inominados, não identificados: os eles “que quando passaram a pagar IPTU, que é muito mais caro, começaram a vender os terrenos. Daí, cada um rasgou a rua onde achou melhor”; os eles “que estão querendo dividir a responsabilidade, mas nós não temos recursos para isso”; os eles “que vieram aqui, consultaram a comunidade sobre a rua e não fizeram nada do que a comunidade pediu”; os eles “que agora querem que a gente convença os vizinhos a recuarem seus terrenos para fazer as calçadas”; os eles “que não podem projetar uma coisa para agora, mas sim para o futuro”.
 

... e “nós”?

Mas, e os “nós”? Aonde foram parar nessa história? Os “nós”, que em novembro de 2004 buscaram o apoio da OAB e recorreram ao Ministério Público para sustar os efeitos de um termo de ajustamento de conduta de iniciativa do próprio MP, que impedia Casan e Celesc de fazer ligações de água e luz para mais de cinco mil edificações clandestinas na cidade, com o objetivo de impedir o vertiginoso avanço do adensamento populacional?

E os “nós”, que em março de 2005 comemoraram a assinatura por Dário Berger de um decreto liberando as tais ligações de água e luz, num fenomenal estímulo à ocupação irregular que hoje em dia resulta na denunciada média de 13% de aumento da população no Distrito, quando no restante da cidade a média é de apenas 3%, conforme registrado na matéria do jornal Notícias do Dia?

Sem esquecer, é claro, dos “nós”, que estão “estudando todos os problemas com muito afinco e cuidado”, mas “que não podemos mais ficar perdendo tempo com divagações e devemos juntos partir logo para discussões e propostas concretas para o Plano diretor” (e-mail datado de 13/07/07, que circulou para uma parcela restrita da comunidade do Rio Vermelho).