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Só mesmo a
pobreza intelectual de nosso meio explica a enorme
facilidade com que hoje em dia se dizem as maiores
mentiras do mundo, na certeza de que serão admitidas
como verdades incontestáveis. Elas são derramadas aos
borbotões por toda a mídia (salvo as exceções de praxe)
porque já se tornou patente que o número de pessoas
capazes - e dispostas - a contestá-las é infinitamente
menor do que o daquelas que as proferem. De resto, essa
contestação exigiria uma trabalheira tamanha, que chega
mesmo a causar desânimo. O resultado é uma goleada da
mentira sobre a verdade, como a que um bom time de
futebol daria em uma partida contra um timinho de
várzea.
A título de
ilustração, mostro aqui apenas três exemplos (entre os
milhares que ocorrem todos os dias nos mais variados
meios de comunicação do país) da rematada desfaçatez com
que essas mentiras são ditas.
Insone
(como sempre), fui ler a última edição da revista Veja (nº
2000), e logo me deparei com duas amostras do
bestialógico tupiniquim, antes mesmo de ter lido a
metade da revista.
Em resposta
à reportagem que a Veja publicou na semana passada sobre
a tentativa da Funai de demarcar uma área para indígenas
paraguaios em Santa Catarina em detrimento dos nossos
índios, o senhor Michel Blanco Maia e Souza, assessor de
imprensa da Fundação, vem tentar justificar aquela
atitude, na seção “Cartas”, declarando que “É graças
aos povos indígenas que o Brasil possui suas dimensões
continentais”.
Quanta
sandice! Qualquer menino de 10 anos, se estudou
direitinho a História do Brasil, sabe perfeitamente bem
que nossa grande extensão territorial se deveu
principalmente à conjugação de quatro fatores: a) a
colonização portuguesa, que logo tratou de criar meios
de defesa do território conquistado, nele instalando
vários fortes (muitos deles existentes até hoje)
estrategicamente localizados para impedir o assalto de
estrangeiros; b) a união das coroas ibéricas, ocorrida
entre 1580 e 1640, propiciando aos portugueses o
adentramento do território situado para além dos limites
estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas; c) a
disseminação da língua portuguesa, que se manteve de
Norte a Sul e de Leste a Oeste, apesar das invasões de
franceses e holandeses; d) a intensa miscigenação entre
brancos, negros e índios (e ainda se fala de racismo no
Brasil!), o que, aliado ao movimento das “Entradas e
Bandeiras”, facilitou o povoamento do território
nacional.
É doloroso
constatar que o assessor de imprensa de um órgão público
federal sequer conheça a História de seu país. Além
disso, causa espanto ver o esmero do estado (com inicial
minúscula mesmo, como muitíssimo bem justificou a Veja
no editorial do número anterior) na “proteção dos
direitos indígenas”, enquanto que uma imensa parte da
população brasileira (pagadora de impostos, é bom
lembrar) mal tem onde morar ou se espreme entre os
barracos das numerosas favelas espalhadas pelas
principais cidades do país, onde inexiste saneamento
básico mas sobram balas perdidas e jovens desempregados.
Já na seção
“Veja essa” da mesma revista, encontro a seguinte frase,
proferida por José Mariano Beltrame, secretário de
Segurança Pública do Rio de Janeiro: “Que sociedade é
essa que deixa menores sair armados de suas casas? O
criminoso não nasce com 16 anos. Ele se forma.”
É claro que
o criminoso não nasce com 16 anos e que leva bastante
tempo para se formar. A desfaçatez, aí, está em dizer
que quem os deixa sair armados é “a sociedade”. E quem
fez tal afirmação não foi um jovem de 16 anos, não. Foi
uma autoridade paga para combater a criminalidade no
estado do Rio de Janeiro!
Quem deixa
esses menores saírem de casa armados, senhor Secretário,
é o senhor mesmo, que deveria não apenas impedir que
eles tivessem acesso a elas (como o senhor deve saber, a
maioria dessas armas é obtida no mercado negro ou então
pela via dos furtos e assaltos), como também sair à caça
de quem tem porte ilegal de armas, tenha o portador a
idade que tiver. De mais a mais, é muito cômodo culpar a
“sociedade” pelo crescente índice de criminalidade,
quando a responsabilidade cabe única e exclusivamente ao
estado. Mas ao invés de desarmar os criminosos - menores
ou não -, o que faz o estado? Simplesmente trata de
evitar qualquer medida mais enérgica para combater a
criminalidade (para nossas autoridades, os bandidos são
“vítimas da sociedade”), ao mesmo tempo em que desarma a
população ordeira, criando enormes obstáculos para a
aquisição de armas que poderiam ser de suma importância
para a sua defesa. É o “estatuto indireto” do
desarmamento ante o retumbante NÃO que os brasileiros
deram em resposta ao referendo, em 2005.
Mas o
bestialógico tupiniquim não pára por aí. Vamos a mais
um:
Ainda no
mesmo dia ouço, por uma rádio de âmbito nacional, a
notícia de que, para reduzir a criminalidade, o
governo do Rio de Janeiro (por proposta da Secretaria de
Ação Social e de Direitos Humanos, em má hora entregue à
senhora Benedita da Silva, do PT) cogita de incluir as
famílias dos menores delinqüentes em programas sociais,
esperando que, com essa medida, “eles se voltem mais
para os seus familiares”.
Parece que
nossas autoridades enlouqueceram de vez! Como podem
imaginar que um dinheirinho a mais para papai e mamãe
demoveria os jovens de delinqüir? O contrário sim, é que
poderia ser de alguma utilidade: se esses jovens
soubessem que suas famílias iriam perder qualquer
benefício governamental (bolsa-família,
seguro-desemprego ou coisas do gênero), quem sabe eles
pensariam duas vezes antes de praticar seus crimes? Quem
sabe essas mesmas famílias, para não perderem os
benefícios, tratassem de controlar melhor os seus
filhos? Mas não: o governo estadual, além de pretender
dar dinheiro para essas famílias (que, na verdade,
muitas vezes já possuem renda muito maior do que a
maioria das de classe média, uma vez que seus filhinhos
trazem para casa o dinheiro do narcotráfico, dos
assaltos e dos furtos), somente poderá fazê-lo às custas
do contribuinte. Preparem-se, cariocas: pode vir aí um
novo aumento de impostos para pagar mais esse ato de
extrema “bondade” do governo. Como se vê, é preciso
mesmo ter muito estômago para agüentar a avalanche de
mentiras e armações que, com a maior desfaçatez, surgem
diariamente na imprensa. Ainda mais quando três delas
vêm juntas em menos de quinze minutos de contato com as
notícias. Alguém tem um antiácido aí? |