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Ói,
ói, ói, que sê manezinha às vegi dói.
Sou só uma manezinha do Norte da Ilha, nascida e criada no Rio
Vemeio. Não fiz falcudade e nunca fui viageira.
Dizem que é prisso que tenho tanta difilcudade de entender o
mundo inteligentoso na volta do meu pasto, não tem?
O patrão me deu ultimato: aprendo a escrever mió ou caio fora!
Tudo por causa dos invejume da parentada, esses istepô! Os
intojado dos meus primo - só havéra de sê eles - foram de
carreira se queixar que eu denégro a honra dos manezinho, de
tanta rata nos meus texto. Farra de boi não denégre, não é seus
malino? Os bando de porca da cara suja ficar em tiras, de
estrapolia e gritaçada, a se esteporári de arrasto na cola do
animáli, de estrambulhão pelos pasto, tudo certo, não é mesmo? E
as muié e as cria, tudo atrás, batendo tamanco nos alfalto? Isso
pode e é bonito? Eles tudo é que estudaram na Escola do Balduíno,
que eu sube, e ficam falseando contra mim. Tás tolo! Até a
procuradora federáli, a doutora Naluz - bem gauchinha ela,
coitadinha! - que é cheia dos diploma superior e autoridade, diz
que gosta dos meus escrito manezinho.
Não faz máli, ô, esses menino: nem paga a pena ficar de
brigaçada com familagem. Mesmo no mô fraco pensá, eu aprendo
digeirinho, não tem? Leio de tudo que os crítico mando: de
dicionáros a manuális de boas maneras.
Dijaôje mesmo li uns papéli de titlo “Florianópolis: Cidade
Insulári”, da dona Tereza Franzoni mais o seu Jorge Silva, com
um pudê de cosa mági sobre histórias da nossa Ilha de antanho,
que copio um pequeno trecho para vocês. É de exercíço, que a
professora mandou:
“Não obstante as providências e as sugestões, continuou o vezo
de se ir jogando o lixo por toda a parte e, anos seguidos e
variados - 1870, 1884, 1885 e outros - as mesmas reclamações de
sempre se repetiam: a Junta de Saúde, pedindo efetivas medidas
sobre os despejos, ainda feitos em lugares fora dos indicados; a
Câmara, publicando e divulgando o eternamente desobedecido
artigo 30 do código de posturas, que multava em 5 mil réis os
que fizessem as suas desfeitas fora dos referidos e chamados
lugares apropriados; o Inspetor de Saúde, dr. José do Rego
Raposo, reclamando sobre os montes de matérias fecais existentes
da Praia do Mercado; da imprensa, denunciando parte disso tudo,
porque não lhe era possível denunciar tudo. A municipalidade
poderia ter ficado rica se aplicasse as sanções previstas - que
ninguém parecia temer e, se houve multas, eram elas relaxadas,
pois a politicagem se metia no meio - e os processos de
ludibriar a autoridade iam cada vez mais se aperfeiçoando. A
única maneira de ver a coisa melhorar um pouco era aparecer uma
epidemia ... Epidemia braba mesmo - cólera, febre amarela, febre
cerebral - pois isso de bexigas ou coisas parecidas já não
assustava a quem quer que fosse. Epidemia que matasse, quando já
estivesse ceifando vidas na cidade. Aí toda a gente punha a boca
no mundo, tomada de temores mais que justificados, para
reclamar, para acusar as autoridades pelas conseqüências da sua
ignorância, da sua má vontade, da sua inconsciência,
isoladamente ou aliadas umas as outras. (CABRAL, 1979: 181-2)”
Virge santa! E dizem que dijaôje é que o nosso lugári vai máli,
máli, máli... tisk, tisk, tisk...
Ó, ói, ói, que sê manezinha às vegi dói.
cacameneia@yahoo.com.br
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